Caso Gabriel Ganley reacende alerta sobre saúde cardíaca em jovens e os riscos do uso indiscriminado de anabolizantes

Fernanda Weiler, médica cardiologista do Sírio Libanês de Brasília e diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, explica relação entre cardiomiopatia hipertrófica, sobrecarga cardiovascular e o impacto do uso de substâncias para ganho de performance.

A morte do fisiculturista e influenciador fitness Gabriel Ganley, de 23 anos, reacendeu nas redes sociais o debate sobre saúde cardiovascular entre jovens e os possíveis impactos do uso indiscriminado de anabolizantes no coração.

Após a repercussão do caso, termos como cardiomiopatia hipertrófica, morte súbita e riscos cardíacos associados à alta performance passaram a ganhar destaque. Embora a cardiomiopatia hipertrófica seja uma doença de origem predominantemente genética, alguns hábitos e substâncias podem aumentar significativamente a sobrecarga cardiovascular e agravar condições já existentes.

Segundo a Dra. Fernanda Weiler, médica cardiologista do hospital Sírio Libanês de Brasília e diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, é importante separar a desinformação de evidências científicas quando o assunto envolve anabolizantes e saúde do coração. “A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética e o uso de anabolizantes não é considerado a causa direta do diagnóstico. No entanto, essas substâncias podem aumentar o risco cardiovascular, favorecer arritmias, elevar pressão arterial e gerar uma sobrecarga importante no músculo cardíaco”, explica.

A médica ressalta que muitos jovens associam aparência física à ideia de saúde, o que pode mascarar riscos importantes. “Ter um corpo musculoso ou um baixo percentual de gordura não significa necessariamente que o coração esteja saudável. O sistema cardiovascular pode estar sofrendo silenciosamente”, afirma.

De acordo com Fernanda, o uso frequente e sem acompanhamento médico de esteroides anabolizantes está associado a complicações como hipertensão, alterações do colesterol, aumento do risco de infarto, insuficiência cardíaca e arritmias potencialmente fatais. “Os anabolizantes podem promover alterações estruturais no coração, incluindo aumento do músculo cardíaco. Em pessoas que já possuem predisposição genética para doenças cardíacas, isso pode representar um fator adicional de risco”, fala a médica.

A especialista destaca ainda que muitos pacientes desconhecem condições cardíacas pré-existentes, já que algumas doenças podem permanecer assintomáticas durante anos. “Em alguns casos, o primeiro sintoma pode ser justamente um evento grave. Por isso, avaliações cardiológicas periódicas são fundamentais, especialmente em pessoas submetidas a treinos de alta intensidade ou que utilizam substâncias para melhora estética e performance”, alerta.

A seguir, Dra. Fernanda esclarece alguns pontos importantes sobre o tema:

VERDADE: Cardiomiopatia hipertrófica pode passar anos sem sintomas
A doença pode evoluir silenciosamente. Desmaios, palpitações, dor no peito e falta de ar durante exercícios merecem investigação médica”, diz a médica.

MITO: Anabolizantes deixam apenas o corpo mais forte
O impacto não acontece apenas na musculatura estética. O coração também é um músculo e pode sofrer consequências importantes”, afirma.

VERDADE: Uso de anabolizantes aumenta o risco cardiovascular
Mesmo em pessoas jovens, o uso indiscriminado dessas substâncias está associado a eventos cardíacos graves”, explica Fernanda.

MITO: Apenas atletas profissionais precisam de acompanhamento cardiológico
Hoje vemos muitos jovens amadores utilizando substâncias de alta potência sem qualquer avaliação médica. Isso é extremamente preocupante”, alerta a cardiologista.

VERDADE: Histórico familiar de morte súbita merece atenção
Casos de mortes precoces na família podem indicar predisposição genética para doenças cardíacas e precisam ser investigados”, orienta a cardiologista.

Para a especialista, o caso também reforça a necessidade de ampliar o debate sobre saúde cardiovascular, performance e pressão estética nas redes sociais: “Existe uma romantização da alta performance e da estética extrema que muitas vezes ignora os riscos envolvidos. Precisamos falar mais sobre prevenção, acompanhamento médico e saúde real”, conclui Fernanda.

(*) Dra Fernanda Weiler é formada em medicina pela Universidade de Brasília (UNB) com residência em cardiologia pela mesma Universidade. É membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e certificada internacionalmente em Medicina do Estilo de Vida. Entre 2014 e 2015 foi professora da UNB.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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