Por Ana Paula Garcia Fernandes dos Santos –
Durante décadas, o cigarro tradicional ocupou o centro das campanhas de saúde pública em todo o mundo. Hoje, porém, o debate internacional sobre tabagismo passou a incluir uma nova preocupação relacionada ao crescimento acelerado do uso de cigarros eletrônicos, vapes e outros dispositivos de nicotina entre adolescentes e jovens da Geração Z.
Celebrado em 31 de maio, o Dia Mundial sem Tabaco ganhou novos contornos nos últimos anos e passou a levantar reflexões sobre a forma como a indústria da nicotina se reinventou para continuar atraindo consumidores jovens por meio de produtos tecnológicos, sabores adocicados, embalagens coloridas e campanhas digitais altamente atrativas.
Criada pela Organização Mundial da Saúde em 1987, a data tem como objetivo conscientizar a população sobre os impactos sanitários, sociais e econômicos relacionados ao consumo de tabaco e nicotina. Embora o número global de fumantes tenha diminuído nas últimas décadas, os dados mais recentes mostram que a dependência de nicotina continua sendo um importante desafio de saúde pública. Segundo a OMS, o tabaco ainda causa mais de 8 milhões de mortes por ano no mundo, incluindo cerca de 1,3 milhão de mortes relacionadas ao tabagismo passivo.
Ao mesmo tempo em que campanhas antitabagismo, aumento de impostos e restrições à publicidade contribuíram para a redução do consumo de cigarros convencionais em diversos países, especialistas observam que o cenário atual se tornou mais complexo. A redução do cigarro tradicional não significa necessariamente uma geração livre de nicotina. Pelo contrário, autoridades sanitárias vêm alertando que os dispositivos eletrônicos têm ampliado o contato de adolescentes e jovens com substâncias altamente viciantes.
Dados recentes divulgados pela OMS estimam que cerca de 37 milhões de crianças e adolescentes entre 13 e 15 anos utilizem produtos derivados do tabaco em todo o mundo. Em alguns países, adolescentes chegam a apresentar taxas de uso de cigarros eletrônicos significativamente maiores do que adultos. Na Europa, relatórios recentes apontam crescimento expressivo do consumo de vapes entre jovens, especialmente entre meninas adolescentes.
Especialistas associam esse aumento à forte presença desses produtos nas redes sociais e às estratégias de marketing utilizadas pela indústria. Diferentemente da imagem historicamente associada ao cigarro convencional, marcada pela fumaça, cheiro forte e campanhas de advertência, os novos dispositivos passaram a ser apresentados com estética minimalista, aparência tecnológica e associação direta com tendências digitais e culturais consumidas pela Geração Z.
Além da preocupação com a dependência química, pesquisadores também vêm investigando os possíveis impactos desses produtos sobre a saúde respiratória, cardiovascular e mental dos jovens. Estudos recentes apontam associação entre o uso de cigarros eletrônicos e maior probabilidade de iniciação ao cigarro convencional, além de sintomas respiratórios, agravamento de quadros asmáticos e sofrimento psicológico em adolescentes.
Diante desse cenário, a Organização Mundial da Saúde tem reforçado campanhas voltadas à proteção de crianças e adolescentes frente às estratégias de promoção dos produtos de nicotina. O tema internacional das campanhas recentes busca justamente chamar atenção para o apelo visual e comportamental utilizado pela indústria para tornar esses dispositivos atrativos ao público jovem.
Apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas no controle do tabagismo, especialistas ressaltam que os desafios continuam em transformação. O debate atual deixou de envolver apenas o cigarro convencional e passou a incluir questões relacionadas ao ambiente digital, influência de redes sociais, marketing comportamental e novas formas de dependência química em uma geração que cresceu conectada.
*Ana Paula Garcia Fernandes dos Santos é nutricionista – Mestre em Alimentação e Nutrição e professora da Escola Superior de Saúde do Centro Universitário Internacional Uninter.





