Por Gaudêncio Penaforte –
A Marcha para Jesus realizada pelas ruas de São Paulo nesta quinta-feira (4), feriado religioso de Corpus Christi, encaixa-se perfeitamente no imaginário de um país que ainda se destaca no cenário ocidental como a maior nação católico-cristã, não fosse por um detalhe: há muitos anos a iniciativa, liderada por igrejas evangélicas, foi capturada pelo arco político da extrema direita brasileira, liderada pela Famiglia Bolsonaro. A deste ano não foi diferente. Flávio Bolsonaro, que jurou fidelidade a Daniel Vorcaro, apresentou-se de cara lavada, como se liderasse o povo cristão em direção à terra prometida, onde a prosperidade do Banco Master — que ele já usufrui — seria estendida a todos os fiéis: a realização da promessa bíblica de leite e mel, na forma de verbas ilimitadas para o “dark horse” que cada um faz por merecer.
Ao transformar a Marcha para Jesus em ato político — também conhecido como comício, em período de campanha eleitoral —, Flávio Bolsonaro não perdeu a oportunidade de recitar as manjadas estratégias eleitoreiras da Cartilha dos Beócios, manipulada a vida toda pelo pai, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tramar golpe e atentar contra o Estado democrático de direito. Delitos leves para os crentes.
A Folha de S. Paulo resumiu bem a pregação segundo o evangelho bolsonarista: “Flávio fala em guerra espiritual contra Lula durante ato evangélico.” Ato falho: leia-se “prega”. Sim, o filho do golpista-mor da República, o amigo de toda vida que jamais abandonará… Vorcaro, declarou solenemente que “o mal vai ser expulso do governo do Brasil”, presumivelmente referindo-se à sua própria vitória em outubro. Sim, porque alguém tão fiel a… Vorcaro reúne todas as qualidades e virtudes para liderar a “guerra espiritual” contra Lula e restaurar os verdadeiros valores cristãos — aqueles que garantem o gozo imediato da prosperidade, graça já alcançada pelo candidato graças à sua amizade com o filho dileto de… Henrique Vorcaro.
Esta mistura entre religião e política é tóxica. Ao lado do pré-candidato bolsonarista estavam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o prefeito da capital, Ricardo Nunes — todos cristãos exemplares, numa cena comovente de religiosidade. Todos mobilizados para a batalha espiritual entre o bem e o mal, liderada pela Famiglia Bolsonaro. O advogado-geral da União, Jorge Messias, que representou Lula no ato, teve ao menos a dignidade de afirmar que não falaria de política e eleições num evento religioso. Talvez essa contenção explique sua recente rejeição pelo Senado para a cadeira de ministro do STF — virtude não é exatamente o que se exige dos escolhidos.
A atuação performática do ínclito representante do clã à frente da marcha dos políticos da extrema direita infiltrados na Marcha para Jesus revela que a Cartilha dos Beócios é intergeracional. Como funcionou com o pai em 2018, o conselho supremo do fundamentalismo direitista cristão acredita que funcionará novamente com o filho em 2026. Afinal, tudo se resume a arrebanhar — e a ideia de “rebanho” aqui é proposital — multidões com o discurso da guerra santa do bem contra o mal e, sob o estandarte dos novos cruzados, marchar por Jesus para eleger os… amigos do Vorcaro. Isso é tudo o que prometem aos paulistas e aos brasileiros: expulsar o mal do governo do Brasil e restaurar os princípios e valores da prosperidade, que o ex-CEO do Banco Master já provou ser possível.
A Cartilha dos Beócios é infalível: arrebanha com discurso religioso, mas só entrega entrada para a “terra prometida” aos eleitos financiados com o dinheiro fácil dos Vorcaros — que rima perfeitamente com os Bolsonaros. Todos feitos do mesmo barro. Por aqui eu paro.
(*) Gaudêncio Penaforte é analista político.





