Por Yolanda Tolentino –
O PARADOXO DO VOTO LOCAL
O candidato fala de asfalto. O mundo decide o preço do pão.
Em outubro de 2026, milhões de brasileiros vão às urnas com a cabeça voltada para o bairro: o buraco na calçada, a fila na UPA, a câmera que não funciona na esquina. É o ritual habitual do voto municipal e estadual, ancorado no cotidiano imediato. Mas existe uma ironia estrutural nessa cena: a viabilidade real de quase toda promessa que o candidato faz depende de variáveis decididas em Washington, Pequim ou Bruxelas, capitais que nenhum eleitor brasileiro vota e para as quais nenhum candidato presta contas.
Essa não é uma constatação abstrata. É um fato verificável no preço do carrinho de supermercado, na taxa do financiamento imobiliário, no custo do combustível, na volatilidade do câmbio. O eleitor que decide com base no bolso está, sem saber, votando dentro de uma moldura geopolítica que ele não escolheu. E o eleitor que decide com base no que vê na tela, no que o algoritmo entrega, no que o influenciador replica, no que o grupo de WhatsApp ecoa está consumindo narrativas cujas matrizes foram testadas e exportadas de outros países antes de aterrissar no seu feed.
“O eleitor vota olhando para o bairro, mas o impacto real vem de fora. Essa é a grande ilusão da eleição mais globalizada da história recente do Brasil.”
A eleição de 2026 não é apenas a disputa entre dois projetos nacionais. É o primeiro ciclo eleitoral brasileiro em que a interdependência geopolítica e a infraestrutura digital global deixaram de ser pano de fundo para se tornarem variáveis centrais de resultado. Quem não enxergar isso vai errar feio no diagnóstico… e no prognóstico.
PILAR 1 — A MATERIALIDADE DO BOLSO
De Washington a Pequim, passando pelo supermercado da esquina.
O impacto econômico externo sobre o eleitor brasileiro não é especulação: é dado mensurável, publicado por instituições respeitadas, sentido no carrinho de compras.
Em 2025, a administração Trump inaugurou o que ficou conhecido como Liberation Day, impondo uma tarifa adicional de 10% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA, seguida de alíquotas sobre aço e alumínio que chegaram a 50% com base na Seção 232. A XP Investimentos estimou que o conjunto das medidas poderia retirar 0,30 ponto percentual do PIB brasileiro em 2025 e 0,50 ponto em 2026 com exportações ao mercado americano recuando até US$ 16,5 bilhões no segundo ano. Exportações que, em 40% dos casos, têm baixíssimo potencial de redirecionamento a outros mercados.
A lógica de transmissão para o eleitor é direta: menor demanda externa pressiona o câmbio, câmbio depreciado encarece importações, importações mais caras elevam a inflação de alimentos e insumos industriais. O consumidor que sente o preço do frango, do azeite ou da peça de reposição não precisa saber de tarifas alfandegárias para votar com raiva, ele simplesmente vota com raiva.
Paralelamente, o acordo Mercosul-UE, assinado em janeiro de 2026 após 25 anos de negociações e já em tramitação no Congresso Nacional, representa o maior movimento de reconfiguração comercial da história recente do país. Para o agronegócio, que em 2025 exportou US$ 25,2 bilhões para a União Europeia, seu segundo maior mercado, o acordo promete liberalização tarifária imediata de 39% das linhas agropecuárias, beneficiando diretamente soja, café, carnes e celulose. Mas a letra miúda importa: Bruxelas impõe condicionalidades ambientais e sanitárias que exigem adaptação produtiva custosa. A pergunta que atravessa o debate eleitoral é quem pagará essa conta, e em que prazo.
O vetor chinês é o mais robusto e, paradoxalmente, o menos debatido na arena eleitoral doméstica. Em 2025, o comércio bilateral Brasil-China atingiu o recorde de US$ 100 bilhões. Commodities como minério de ferro, soja, petróleo, representam 80% do que o Brasil exporta a Pequim, criando uma dependência estrutural que a consultoria Eurasia Group identificou como o risco externo mais consequente para o Brasil em 2026 em seu relatório Top Risks. Uma desaceleração da economia chinesa, cuja meta de crescimento para 2026 foi reduzida a 4,5%-5%, se traduziria, quase automaticamente, em menor demanda por commodities, queda de preços e pressão sobre o fisco brasileiro.
O Brasil de 2026 está preso em um triângulo geopolítico sem saída fácil: a guerra tarifária de Trump pressiona as exportações; o acordo com a UE promete mercados, mas exige concessões; a China compra muito, mas condiciona. Qualquer candidato que prometa controlar o custo de vida sem endereçar esse triângulo está, no mínimo, sendo impreciso.
PILAR 2 — A CONTAMINAÇÃO DO ALGORÍTIMO
A campanha local que não nasceu aqui.
Se o primeiro vetor de influência global é econômico e se mede em dólar, o segundo é comportamental e se mede em engajamento. E ele é, em muitos sentidos, mais difícil de rastrear, e mais difícil de regular.
A aproximação entre aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e o entorno político de Donald Trump, incluindo a visita recente do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro aos EUA e os encontros com grupos ligados ao trumpismo, não é evento diplomático isolado. É sintoma de um fenômeno mais amplo: a exportação de um modelo de campanha, de uma gramática política e de uma estética de polarização que foram testadas nos EUA antes de aterrissar no Brasil.
Esse modelo tem componentes identificáveis: consolidação de narrativas anti-establishment alimentadas por desconfiança institucional; polarização pelo afeto, em que a escolha eleitoral é mais emocional do que programática; uso intensivo de canais diretos ao eleitor: TikTok, Instagram, grupos de WhatsApp, que contornam os filtros do jornalismo tradicional. O estudo Termômetro das Redes: Eleições 2026, produzido pela Polis Consulting com base no monitoramento de 20 mil conversas públicas e 245 perfis políticos, concluiu que o debate já se organiza em torno de “desconfiança, polarização e volatilidade reputacional” e que o engajamento digital não está centrado em propostas, mas em “percepções de risco, julgamentos morais e disputas sobre credibilidade”.
A ausência de regulação efetiva das plataformas digitais potencializa esse cenário. A proposta de regulação das redes sociais travou no Congresso e no Judiciário. O Brasil chega às eleições de 2026 sem critérios definidos para o controle de conteúdo o que, segundo especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato, abre espaço para formas indiretas de influência e financiamento de campanhas fora dos canais legais.
O TSE avançou: a Resolução 23.748/2026, aprovada em março, posiciona o Brasil como um dos países com a regulação mais específica do mundo sobre uso de IA em eleições. Ela proíbe deepfakes, exige rotulagem de conteúdo sintético e impõe responsabilidade solidária às plataformas digitais. Mas especialistas como Heloisa Massaro, diretora do InternetLab, apontam que o avanço normativo esbarra em limitações práticas: o TSE não dispõe de estrutura técnica para fiscalizar, em tempo real e em larga escala, a produção de conteúdo que circula nas redes.
“A principal frente de preocupação para 2026 é o financiamento e a difusão de desinformação por meio das redes sociais. O Brasil chega ao pleito sem critérios definidos para o controle de conteúdo.”
Há, ainda, a dimensão da disputa geopolítica pelo resultado eleitoral em si. Fontes diplomáticas citadas pela imprensa indicam que Pequim acompanha com atenção o pleito e teme um alinhamento mais próximo com Washington que pudesse comprometer acordos estratégicos com o Brasil. Em paralelo, a campanha da oposição nas redes “Defenda o Brasil de Lula” e “A culpa é de Lula” já instrumentaliza as tarifas de Trump como munição eleitoral, atribuindo a ameaça comercial às escolhas de política externa do governo. Geopolítica virou slogan de campanha. Fonte: Gazeta do Povo, jul. 2025; BNC Amazônia, abr. 2026.
CONCLUSÃO — O XADREZ QUE OS CANDIDATOS EVITAM JOGAR
A eleição mais globalizada da nossa história recente.
Há um consenso tácito e conveniente na política eleitoral brasileira: fingir que o Brasil é uma ilha. O candidato que fala em câmbio perde o eleitor que não sabe o que é taxa Selic. O candidato que explica cadeias globais de suprimento perde para quem fala de asfalto. Essa lógica tem sua racionalidade eleitoral, mas produz um diagnóstico sistematicamente equivocado.
A tese deste release é direta: as eleições de 2026 são as mais globalizadas da história recente do Brasil, com dois vetores de influência externa operando simultaneamente e com eficácia crescente. O primeiro, econômico, incide sobre o bolso do eleitor através da cadeia câmbio inflação-consumo, alimentada por decisões tomadas em Washington, Pequim e Bruxelas. O segundo, comportamental, incide sobre a tela do eleitor através de algoritmos que amplificam narrativas importadas de dinâmicas globais — especialmente o trumpismo —, polarizando o debate em torno de afeto e identidade, não de programa.
Os dois vetores interagem: quando a tarifa americana encarece o arroz, o algoritmo já está pronto com a narrativa de quem tem culpa. A materialidade do bolso alimenta a inflamabilidade da tela. E o eleitor, prensado entre os dois, decide com a raiva que o real produz e com a explicação que o feed entrega.
Qualquer analista, estrategista ou jornalista que construa seu diagnóstico eleitoral olhando apenas para o cenário doméstico está trabalhando com metade do mapa. Ignorar o xadrez geopolítico internacional não é uma opção legítima em 2026, é um erro metodológico com consequências práticas. O Brasil não é uma ilha. A urna, neste outubro, é também importada.
(*) Yolanda Tolentino é analista política. Contribui com análises para veículos de impacto nacional e acompanha os ciclos eleitorais brasileiros com foco nas interfaces entre geopolítica, política doméstica e comportamento eleitoral.





