Por Rafaella Munhoz da Rocha
Reli O Profeta essa semana. Não planejei. Simplesmente aconteceu, como acontecem as coisas que precisam acontecer no momento certo.
Gibran diz: quando o amor te chamar, segue-o, mesmo que seus caminhos sejam árduos e ingremes. E quando suas asas te envolverem, entrega-te a ele, ainda que a espada oculta entre suas penas possa ferir-te.
Fiquei um tempo parada nessa frase. Não pela beleza — mas pelo medo que ela nomeou com tanta precisão.
Conhecer a espada com antecedência muda alguma coisa? Ou só torna a escolha mais consciente — e mais pesada?
Sempre achei que consciência protege. Que saber dos riscos cria uma espécie de armadura. Que o conhecimento da dor iminente seria suficiente para me manter inteira.
Gibran discorda. Ele não diz: se souberes da espada, afasta-te. Ele diz: entrega-te, ainda que a espada possa ferir-te. A entrega não é ingenuidade. É escolha.
E escolha consciente dói de um jeito diferente. Porque você não pode culpar o acaso. Não pode dizer que não sabia. Você sabia. E foi assim mesmo.
Gibran diz que o amor te coroa e te crucifica. Que promove teu crescimento e realiza tua poda. Que sobe até teus ramos mais delicados e depois desce até suas raízes — e as sacode.
Eu costumava ler isso como metáfora bonita. Agora leio como aviso.
Porque a poda dói. Não importa que seja necessária. Não importa que depois venha o crescimento. No momento em que o galho cede, só existe a perda do que era.
E talvez seja exatamente isso que busquemos evitar. Não o amor — mas a poda que ele inevitavelmente traz. O que vai ter que ceder para que algo novo caiba.
A vida não pausa enquanto você decide. Ela acumula.
Enquanto penso no amor que chama e na espada que pode ferir, há outras camadas que não escolhemos mas que carregamos. Pessoas que amamos enfrentando o que a vida às vezes impõe — e que pedem não solução, mas presença. Causas em que acreditamos que exigem tudo agora. Uma vida que, olhada de fora, parece cheia. E que, olhada de dentro, às vezes parece que está sendo vivida no limite da capacidade.
Gibran fala sobre trabalho animado pelo amor. Diz que trabalhar com amor é tecer um tecido com fios tirados do coração. Eu reconheço isso. Sei o que é dar de dentro. Sei também o que acontece quando você dá muito, por muito tempo, sem reabastecimento.
Talvez os amores que chegam e os que vão — esse movimento constante que a gente nunca aprende completamente — não sejam só mais demandas. Talvez sejam exatamente o reabastecimento e a poda acontecendo ao mesmo tempo. Às vezes na mesma pessoa. Às vezes em momentos diferentes da vida.
Ainda não sei distinguir um do outro enquanto estou dentro. E Gibran, curiosamente, não me pede que eu saiba. Só me pede que eu siga.
Porque amar, aprendi, é maior do que eu pensava. Cabe pessoas. Cabe causas. Cabe presença nos momentos que custam. E cada uma dessas formas de amor pede a mesma coisa: que você escolha, sabendo o preço.
Fechei o livro sem ter respostas. Mas com algo diferente do que tinha quando o abri.
Talvez seja isso que a grande literatura faz — não resolve, não conforta no sentido fácil da palavra. Ela nomeia. E há um alívio estranho em ver nomeado aquilo que você carregava sem palavras.
Gibran escreve sobre o amor como quem conhece a espada por dentro. Não como quem a evitou — mas como quem escolheu seguir mesmo sabendo.
Acho que é isso que estou aprendendo. Que a consciência do risco não é motivo para parar. É só a condição de quem escolhe com os olhos abertos.
E escolher com os olhos abertos — mesmo sem saber o que vem — talvez seja a única forma de amor que vale a pena.
Rafaella é advogada e colaboradora deste jornal





