IA domina a agenda corporativa, mas amplia riscos para quem ignora a segurança

Por Vinícius Gracia – A implementação acelerada da tecnologia pode abrir espaço para vazamentos de dados, riscos jurídicos e prejuízos reputacionais.

A inteligência artificial deixou de ser uma tendência para se tornar uma exigência competitiva. De grandes corporações a pequenas empresas, a corrida pela adoção de ferramentas capazes de automatizar processos, reduzir custos e aumentar a produtividade está transformando a forma como os negócios operam. Mas, na velocidade da inovação, muitas organizações podem estar ignorando uma questão essencial: a proteção de seus próprios dados.

O fenômeno acontece em escala global. Segundo levantamento da consultoria McKinsey, 78% das empresas já utilizam inteligência artificial em pelo menos uma área do negócio, um crescimento impulsionado principalmente pela popularização das plataformas de IA generativa. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a forma como informações corporativas sensíveis estão sendo compartilhadas dentro dessas ferramentas.

Contratos, dados financeiros, informações estratégicas, registros de clientes e documentos internos passaram a fazer parte da rotina de interação entre colaboradores e sistemas de inteligência artificial. Em muitos casos, porém, esse uso acontece sem políticas claras de governança, sem treinamento adequado e sem critérios definidos sobre quais informações podem ou não ser inseridas nas plataformas.

Para Vinícius Gracia, engenheiro da computação e especialista em softwares e inteligência artificial, a maior vulnerabilidade não está na tecnologia, mas na forma como ela vem sendo incorporada pelas empresas.

“A adoção da IA aconteceu muito rapidamente. Muitas organizações concentraram esforços em implementar a tecnologia para ganhar eficiência, mas deixaram em segundo plano questões relacionadas à segurança, ao controle de informações e à governança. Isso cria um cenário de exposição que nem sempre é percebido imediatamente”, afirma.

A preocupação é reforçada por números do mercado de segurança digital. Relatório da IBM aponta que o custo médio global de uma violação de dados atingiu US$ 4,88 milhões em 2024, o maior valor já registrado pela companhia. Além das perdas financeiras, incidentes envolvendo informações corporativas podem gerar danos à reputação, perda de confiança de clientes e questionamentos regulatórios.

O tema também começa a ganhar espaço no Judiciário. Recentemente, a Justiça condenou uma grande rede farmacêutica ao pagamento de R$ 10 milhões por práticas relacionadas ao tratamento inadequado de dados de consumidores, reforçando a crescente atenção das autoridades sobre privacidade e proteção de informações pessoais.

Embora o caso não esteja diretamente ligado à inteligência artificial, especialistas observam que ele evidencia uma mudança importante: empresas estão sendo cobradas não apenas por coletar dados, mas também por demonstrar responsabilidade sobre a forma como essas informações são utilizadas, armazenadas e protegidas.

Segundo Lucas Paglia, advogado especializado em direito digital, cybersegurança, proteção de dados e compliance regulatório, a inteligência artificial ampliou a necessidade de estruturas robustas de governança.

“Muitas organizações ainda tratam a IA como uma ferramenta operacional, quando na verdade ela também representa um desafio jurídico e estratégico. A empresa continua responsável pelas informações que processa e pelas decisões que toma, independentemente da tecnologia utilizada. Sem controles adequados, o risco regulatório aumenta significativamente”, explica.

Outro ponto de atenção envolve as chamadas “sombras da IA”, fenômeno em que colaboradores utilizam ferramentas de inteligência artificial sem o conhecimento ou autorização formal da empresa. O comportamento, já observado em diferentes mercados, dificulta o controle sobre quais dados estão sendo compartilhados e para quais finalidades.

Além das questões relacionadas à privacidade, especialistas alertam para riscos ligados à qualidade das informações geradas. Sistemas de IA podem produzir respostas incorretas, criar conteúdos sem base factual ou reproduzir vieses presentes nos dados utilizados para treinamento. Quando essas informações são utilizadas em processos críticos sem validação humana, os impactos podem ser significativos.

Para Vinícius Gracia, o mercado está entrando em uma nova etapa da transformação digital. “Nos últimos anos, a pergunta era quais empresas adotariam inteligência artificial. Agora, a questão é quais empresas conseguirão utilizá-la de forma segura, estratégica e sustentável. A vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de controlar os riscos associados a ela”, afirma.

Na avaliação de Lucas Paglia, a tendência é que a governança da inteligência artificial se torne um dos temas centrais da agenda corporativa nos próximos anos. “A inovação continuará avançando, mas a maturidade das empresas será medida pela forma como elas equilibram produtividade, segurança, transparência e conformidade regulatória. Quem não construir esse equilíbrio poderá enfrentar consequências muito mais caras do que o investimento feito na própria tecnologia”, conclui.

Em meio à corrida pela transformação digital, uma nova realidade começa a se consolidar: tão importante quanto adotar inteligência artificial será garantir que ela não se torne uma porta aberta para riscos que muitas empresas ainda não aprenderam a enxergar.

(*) Vinícius Gracia é engenheiro da computação e especialista em softwares e inteligência artificial. Cofundador e CTO da Easy Taxi e da Remessa Online. Participa de boards e presta consultoria estratégica em IA, dados e segurança para empresas de diferentes setores.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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