Futebol e política, entrelaçados em um Brasil da mesmice e comodismo

No maior fiasco nos últimos 36 anos em mundiais, a seleção é o retrato de um país parado no tempo, sem ousadia para crescer. Agora, os olhos se voltam às eleições, onde prospera o conceito de “mais dos mesmos”.

A decepção com o futebol brasileiro na Copa do Mundo da Fifa 2026, na melancólica despedida com o pior desempenho nos últimos 36 anos, não é obra do acaso, fatalidade ou culpa de arbitragem, surrada desculpa de derrotados. O resultado é o desenho de um país que se mostra acomodado e tomado por vícios que corroem não somente a imagem de encanto no futebol outrora construído e imitado. Corroem valores de cidadania, contaminados por uma política que alimenta poder e poderosos em detrimento de perspectivas de futuro. Inversão que enfraquece o trabalho, a produção e o desenvolvimento. Poda-se a ousadia desenvolvimentista para alargar a submissão e dependência.

Quando o jornalista e escritor Nelson Rodrigues cunhou o termo “complexo de vira-lata”, inspirado na derrota do Brasil para o Uruguai em pleno Maracanã, em 1950, ele exprimia o sentimento geral de inferioridade voluntária no qual o brasileiro desvaloriza suas origens, sua cultura. É certo que nesta longa jornada, de décadas, o Brasil conquistou cinco títulos mundiais no futebol, mas o encanto, a magia e a alegria expostos pelos jogadores foram perdendo a sua energia. Ter um técnico estrangeiro e que tem o maior salário entre todos os que ocupam tal função no Mundo, é um retrato do que foi apagado pelo tempo, assim como jogadores que, em sua quase totalidade, envergam as cores de times de outros países, seduzidos, o que é normal, pela grana, pelo luxo, pela ostentação.

O vexame no futebol, então, é muito parecido com o de nossa política. Não nascem mais líderes, pessoas engajadas com os interesses maiores da Nação e que conseguem ficar longe das armadilhas advindas dos Poderes. Só mais do mesmo. Luiz Inácio Lula da Silva, que cumpre seu terceiro mandato presidencial, com intermeio de eleições em que conseguiu eleger e reeleger Dilma Rousseff – alguém sem carisma e sem competência para a envergadura do cargo -, já não tem a vitalidade que tenta falsear como candidato mais uma vez. Respeita-se sua história, como a de grandes craques do futebol que engrandeceram o esporte, mas ele é o retrato legítimo do que falta ao Brasil para se renovar. Vive-se do passado sem planejar o amanhã. Patriotismo é exercício de circunstância, para muitos.

O microfone virou um inimigo de Lula. A cada discurso, escorregadas típicas de quem já enfrenta os reflexos (ou falta deles) da senilidade. Gafes, os velhos refrões de combate à pobreza e ataques à gestão do antecessor Jair Bolsonaro, a quem imputa o tempo todo a vulnerabilidade de seu próprio mandato pela herança de um “país quebrado”. Retórica e desculpa furada, já que quando assumiu seu primeiro mandato, em 2003, o foco já era enfrentar as desigualdades sociais. Não compartilha nenhuma proposta nova, nenhuma ideia que projete um Brasil efetivamente em progresso. As inaugurações apressadas ao calor das restrições eleitorais, mais ilusórias que reais, revelam o esgarçamento desse modelo de política e de governança.

Um país travado

Entrar em números não é o foco, mas vivemos o período de maior endividamento da sociedade, realidade que não pode ser enfrentada com paliativos eleitoreiros, ainda mais quando somos os campões em juros reais no Mundo, à frente de uma Rússia em guerra e de uma Turquia há pouco insolvente. É a 11ª maior economia do planeta e ocupa a 84ª posição no IDH, entre 193 países (Noruega, é o 1°). Porém, caiu para a 65ª posição entre 70 países no ranking mundial de competividade. Mais que um dado ruim, é o retrato dos obstáculos que travam o crescimento do país. Afinal, 90 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto, ao mesmo tempo em que 32 milhões vivem sem acesso à água potável. Isto que o Brasil lidera o ranking mundial de disponibilidade de água doce, abrigando cerca de 12% do total do planeta.

Com a política polarizada e ausência de lideranças capazes de movimentar a Nação e alcançar credibilidade, o nome de direita que se apresenta é o de Flavio Bolsonaro, ungido pelo pai, ex-presidente e ainda detentor de substancial cacife político, mesmo que em prisão domiciliar e alijado de pretensões eleitorais no atual momento. Flavio conquistou o seu espaço, mas não por méritos próprios. Herdou parte do cacife, como se o espaço fosse hereditário, pois, como parlamentar, pouco mostrou. Se os planos de governo já eram tímidos, os últimos enroscos com a ligação com Vorcaro e o filme do pai e os atritos no seio da família Bolsonaro contribuíram para a desconfiança na grande massa.

Com outros pré-candidatos ainda sem deslanchar e as pesquisas focando mais em projeções para eventual segundo turno entre Lula e Flavio, o que se teme é que o Brasil entre em campo também derrotado na política, com mais conflitos e farpas entre esquerda e direita e menos propostas que impactem em benefícios reais à sociedade. São mais de 213 milhões de brasileiros, mais de 158 milhões deles aptos ao voto em primeiro turno, que vai ocorrer em 4 de outubro. Ou 25 de outubro, em segundo turno. Muita gente e que exige respeito. Serão eleitos deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República.

A foto em destaque no artigo mostra a decepção de jogadores do selecionado. Não mostra a decepção de todo um Brasil e outros tantos torcedores espalhados pelo Mundo ainda com lembrança do futebol bonito, envolvente, cheio de verdadeiros malabarismos. E que intimidava e colocava adversários para correr, tentar pegar a bola, escapar dos dribles. Não como uma equipe que se apequenou diante de seleção advinda de um país com 5,6 milhões de habitantes, a qual ganhou não só no placar, mas ao ficar com 65% da posse de bola. Algo sem igual para um time que esteve presente em todas as 23 edições da Copa do Mundo. Que falta faz um 10, no nosso futebol. Na política, também.

Pegar exemplos de quem nos mandou para casa mais cedo é um bom começo para enxergar o futuro e criar ambientes de otimismo e perseverança. Além de 1° em IDH, também o é em sustentabilidade ambiental, além de ser 2° em justiça (Brasil é 111°), 3° em percepção de corrupção (104°, o nosso), 3° em PIB per capita (89°), 6° em saúde (70°), 6° em liberdade econômica (124°), 7° em educação (54°), 8° em qualidade de vida (72°), 9° em competitividade global (60°) e 17° em segurança (128°). E lá, de quebra, o enteado do príncipe herdeiro acaba de ser condenado a 4 anos de prisão por estupro e violência doméstica.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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