Na década de 1950, ele morou em Marialva, no Noroeste, escrevendo para um jornal local e trabalhando em serviço de alto-falantes. A geada que arrasou cafezais deu origem à primeira obra, “Fogo Frio”, em 1959.
Devido a complicações de insuficiência renal crônica, faleceu nesta terça-feira (7), no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, o dramaturgo e escritor Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas como “Pantanal”, “Renascer” e “Terra Nostra”. Ele tinha 95 anos e há pelo menos três vinha sofrendo mais intensamente com a doença, com histórico de reinternações frequentes. Em janeiro deste ano, havia passado 19 dias internado no mesmo hospital.
O corpo será velado nesta tera, das 15 às 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de SP. A cerimônia será aberta ao público entre as 15h e as 16h. Após o velório, a família vai acompanhar a cerimonia de cremação. A morte do dramaturgo teve grande repercussão nos meios artístico e cultural. A Rede Globo emitiu nota de pesar, assim como a prefeitura de Marialva, cidade do Noroeste paranaense onde Benedito viveu na década de 1950, tendo convívio com os pioneiros e os cafezais da região, colaborado com um jornal local e até trabalhado com um serviço de alto-falante, que era muito comum à época. Uma vivência marcante que respaldaruia sua obra.
“A histórica geada de 1952, que atingiu Marialva e toda a região, inspirou seu primeiro romance, Fogo Frio, e as experiências vividas em nossa cidade ajudaram a construir o universo rural que se tornou sua marca registrada, diz um trecho da nota publicada pela prefeitura nas redes sociais. Ao lamentar a morte, a prefeitura destacou que “Marialva se orgulha de fazer parte da trajetória de um dos maiores nomes da dramaturgia nacional e presta sua homenagem, reconhecendo o legado cultural deixado por Benedito Ruy Barbosa para o Brasil.”
Em outro trecho reforça a passagem de Ruy Barbosa: “Antes de conquistar o Brasil com novelas que marcaram gerações, Benedito viveu em Marialva no início da década de 1950. Ao longo de sua carreira, Benedito Ruy Barbosa eternizou histórias do campo em sucessos como O Rei do Gado, Terra Nostra, Cabocla, Meu Pedacinho de Chão e Pantanal, levando para milhões de brasileiros um pouco da essência e das vivências que encontrou no interior do Paraná.”
A origem
O mais velho entre cinco irmãos, Ruy Barbosa nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 1931, e passou a infância na vizinha Vera Cruz, uma região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos.
Com a morte precoce do pai, precisou trabalhar desde cedo para ajudar a família. Ao longo da juventude, trabalhou como auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro, até conseguir um emprego como revisor no jornal “O Estado de S. Paulo”.
O gosto pela escrita levou Benedito a criar seu primeiro romance, “Fogo Frio”, que foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, o começo de sua trajetória como roteirista.
Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro, exploram a diversidade cultural, com interesse especial na imigração italiana, e apresentam amores intensos.
Seu legado inclui tramas icônicas como “Meu Pedacinho de Chão” (1971), “Pantanal” (1990), “O Rei do Gado” (1996) e “Terra Nostra” (1999), marcadas por protagonistas de “bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos”, como o próprio definia.
Estreia na televisão
Sua estreia na televisão aconteceu em 1966, com “Somos Todos Irmãos”, na TV Tupi. Nos anos seguintes, passou por emissoras como Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, escreveu “Meu Pedacinho de Chão”, novela produzida por uma parceria da Cultura com a Globo e exibida por ambas.
Cinco anos depois, assinou com a Globo, onde deu início a uma sequência de sucessos na faixa das 18h. Nessa época, adaptou o romance de Ribeiro Couto em “Cabocla” (1979).
Em 1990, ao se transferir para a TV Manchete, Benedito escreveu “Pantanal”, que inovou ao utilizar locações externas e explorar a cultura e os mistérios do bioma brasileiro.
Com o sucesso, retornou à Globo para escrever “Renascer” (1993), trama ambientada no interior baiano e marcada pelo duelo de gerações do coronel José Inocêncio. Ambas seriam refilmadas décadas depois, escritas por seu neto, Bruno Luperi.
Com “O Rei do Gado” (1996), Benedito abordou a rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, enquanto discutia temas como a posse de terra e a reforma agrária.
Já em “Terra Nostra” (1999), retratou o drama dos italianos Matteo e Giuliana, separados ao chegarem ao Brasil no início do século XX.
Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras. Em 2006 e 2014, assinou as refilmagens de “Sinhá Moça” e “Meu Pedacinho de Chão”.
Na versão cheia de cores da segunda obra, declarou que finalmente conseguiu colocar no ar ideias que a censura havia barrado na primeira versão, durante a ditadura militar.
Em 2016, escreveu “Velho Chico”, novela ambientada na cidade fictícia de Grotas do São Francisco, no sertão nordestino. A novela trouxe um embate de gerações e a disputa por terra e poder no interior do Brasil.
“Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor”, definiu Benedito Ruy Barbosa em depoimento ao Memória Globo.





