Um novo olhar para os idosos

Maracanã, Rio de Janeiro, 16 de julho de 1950. Num lance infeliz para o Brasil, o atacante Gigia, da seleção de futebol do Uruguai, faz o segundo gol de sua equipe, frustrando o nosso país ao não conseguir o primeiro título de campeão de futebol. Personagem do jogo: o goleiro Barbosa, acusado por muitos de ter sido o responsável pela derrota brasileira.

Praia Grande, litoral paulista, 10 de junho de 1997, em uma rua qualquer vaga um idoso de 75 anos, sem ter um lugar para morar. Nome deste idoso: Moacir Barbosa, o mesmo goleiro da frustrada campanha de 1950, vagando ao léu, por ter sido despejado do apartamento onde morava. Muito lúcido, sem ter para onde ir, comendo de favor, contando apenas com uma pensão do INSS de irrisórios R$ 87,00, menos até que o salário mínimo de então (R$ 120,00). Perambula pelas ruas à espera de que a morte – de uma forma indigna – venha buscá-lo.

O que será que estaria passando por sua cabeça? Ídolo nos clubes onde jogou, realizando defesas incríveis, aplaudido em pé nos estádios ovacionado pela torcida, a qual deu tantas alegrias. Talvez, perguntasse a si próprio: Onde estão todos? O que sobrou daquele tempo? Saudade? Dinheiro? Gratidão? Que gratidão, se hoje estou só e esquecido?

Culpado ou não pelo “maldito” gol sofrido em 1950, agora, como muitos idosos, jaz esquecido, só e abandonado, tendo como única riqueza suas lembranças. E suas mágoas.

Infelizmente, este é o triste quadro de muitos idosos em nosso país. Pessoas que labutaram uma vida toda, dedicando-se integralmente ao trabalho e à família, quando chegam a uma idade avançada são obrigados a viver com uma aposentadoria medíocre – quando a conseguem -, abandonados pela sociedade e, não raras vezes, pela própria família; sem lugar para morar e exígua chance no mercado de trabalho.

Por que não seguimos o exemplo de países mais desenvolvidos, onde pessoas mais idosas continuam a trabalhar, competindo em igualdade com os mais jovens? O que deve sempre prevalecer é a competência e a capacidade e não somente o número de anos ainda a ser vivido. Em tais países, quantos idosos, mostrando sinais de artrose em suas mãos com deformidades nos dedos, continuam desempenhando muito bem as mais variadas funções.

E aqui no Brasil? Aqui, acima de 45, 50 anos, o mercado de trabalho já começa a se fechar. Diminuem as oportunidades às pessoas de meia idade, que dirá às de terceira idade.

Estamos no terceiro milênio e urge que se faça muito em prol da imensa legião de idosos, que aumenta ano a ano, para que tenhamos menos “Barbosas” por aí sem perspectivas, sem diretrizes, a perambular nas incertezas.

Em tempo: O “Maracanazo” acaba de completar 75 anos de triste lembrança. E Moacir Barbosa faleceu em 7 de abril de 2000, em Praia Grande, aos 79 anos. O contexto deste artigo remonta àquele período e, depois de duas décadas e meia, exige-se muitas ações para propiciar dignidade aos nossos senhores e senhoras com mais idade.

(*) Luiz Antonio da Silva Sá é médico (CRM-PR 14043), especialista em clínica médica, geriatria e gerontologia, professor da Disciplina de Saúde do Adulto e do Idoso da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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