O Brasil de Laudemir e o Brasil da Pesquisa Quaest-Rede Globo

Paulino Motter

Na noite do último domingo (17/08), o Fantástico, tradicional programa dominical da Globo que mescla entretenimento e jornalismo, ofereceu aos brasileiros, talvez sem intenção, uma espécie de aula magna sobre o país em que vivemos. A justaposição entre a reportagem O Brasil no Espelho — pesquisa encomendada pela emissora à Quaest — e a cobertura do bárbaro assassinato do gari Laudemir Fernandes, executado a sangue frio enquanto trabalhava nas ruas de Belo Horizonte, escancarou as vísceras do Brasil real.

A pesquisa, apresentada como “a maior já realizada” sobre valores e percepções dos brasileiros, ouviu quase dez mil pessoas em todos os estados e no Distrito Federal. Em tom celebratório, as apresentadoras do programa descreveram um país em harmonia, “guiado pela fé em Deus, pelo amor à família, orgulhoso de si mesmo e otimista apesar das dificuldades.” Um retrato, nas palavras de Maju Coutinho e Poliana Abritta, que se aproxima mais da ode do que da investigação sociológica.

Os resultados destacados pela emissora impressionam pela homogeneidade:

  • 96% consideram a família “a coisa mais importante da vida”;
  • 9 em cada 10 afirmam que o amor, e não o modelo, define o que é família;
  • 96% dizem que a fé é motor do otimismo, “Deus no comando”;
  • 85% declaram orgulho do Brasil, índice superior ao registrado em pesquisas equivalentes nos EUA e em outros países.

Essa unanimidade foi encarnada em personagens cuidadosamente selecionados. De um lado, a família do agricultor Fabiano, produtor de arroz no Vale do Rio Pa rdo (RS), erigido à condição de “pai-herói”: o homem que salvou a família da enchente, que educa os filhos “como o pai o educou”, que proclama que sem Deus nada existe e que dinheiro nada vale diante da família. Sua esposa, mostrada lavando louça ou servindo chimarrão, permanece em silêncio — símbolo eloquente de um patriarcado persistente.

Do outro lado, no Morro do Cantagalo (RJ), aparece a advogada Joseli Laurentino, negra, exaltando a criatividade da favela e a importância da fé. Fica subentendido que faz parte de uma família homoafetiva. Sua voz urbana e popular serve como contraponto, mas nunca rompe o enquadramento central: todos, do campo ao morro, partilhariam os mesmos valores fundamentais.

O “frame” estereotipado é nítido: rural versus urbano, família tradicional versus família homoafetiva, religiosidade bucólica versus fé comunitária. Ao fim, a palavra mágica que tudo costura é “Brasil”. Um país que, ao se olhar no espelho, se enxerga como guerreiro pacífico, solidário, alegre, criativo, otimista. Até a pobreza e a exclusão social são revestidas de lirismo: a favela desenha “linhas e espaços que os arquitetos achariam impossível criar”, no fecho poético do repórter Pedro Bassan.

Não se trata de um retrato sociológico, mas de uma construção mítica de identidade nacional. Percentuais esmagadores e personagens estereotipados reforçam a imagem de um Brasil idealizado, onde conflitos de classe, gênero e raça se dissolvem numa harmonia improvável. Um “fatalismo religioso” temperado por alegria resiliente: fórmula perfeita para confortar consciências, mas incapaz de dar conta da dureza da vida cotidiana.

E foi justamente essa dureza que irrompeu logo em seguida. Sem intervalo, o Fantástico exibiu uma reportagem sobre o assassinato brutal de Laudemir Fernandes, gari invisível no cotidiano e notado apenas na morte. Como tantos trabalhadores da limpeza urbana, mesmo trajando o vistoso uniforme alaranjado, ele era parte da engrenagem essencial da cidade, mas reduzido ao incômodo dos passos apressados. Tornou-se notícia apenas porque tombou, sangrando, na contramão do privilégio.

A investigação policial foi célere. No mesmo dia, o “empresário” Rene da Silva Nogueira foi preso em uma academia de luxo. O suposto ass assino, musculoso e abastado, teria usado a arma da própria esposa, delegada da Polícia Civil. Após disparar contra Laudemir e deixá-lo agonizando no asfalto, evadiu-se da cena do crime em seu carro de luxo, recolheu-se ao condomínio de alto padrão em Nova Lima, a Beverly Hills de Belo Horizonte, onde, pouco depois, foi filmado passeando serenamente com dois cachorros. O desprezo pela vida do outro — sobretudo a vida de um trabalhador negro e pobre — escancara a distância entre o Brasil idealizado da pesquisa e o Brasil real das ruas.

Na última segunda-feira (11/08), Laudemir havia saído de casa antes do sol nascer para mais uma jornada extenuante de trabalho. Era gari, representante de uma categoria que sustenta a limpeza urbana e garante o funcionamento das cidades, mas que só ganha visibilidade quando insultada, agredida ou morta. Sua história não cabe no espelho encantado da Globo, mas deveria ser nele que o país se enxergasse.

O contraste entre as duas reportagens revela uma fissura profunda. De um lado, o Brasil da pesquisa Quaest-Globo: harmônico, religioso, patriótico, reconciliado consigo mesmo. De outro, o Brasil de Laudemir: atravessado por desigualdades e preconceitos, marcado por violência de classe e pelo racismo estrutural — essa engrenagem histórica que naturaliza a morte precoce de corpos negros e normaliza privilégios de uma elite que, não raro, os exerce como licença para matar.

Chico Buarque, em Construção, já havia traduzido essa contradição em música: o operário que “morreu na contramão atrapalhando o tráfego” tornou-se metáfora de um país que naturaliza a morte dos de baixo. Laudemir, como o personagem de Chico, caiu no meio da rua, interrompendo o fluxo e expondo, mesmo sem querer, a violência estrutural — de classe e de raça — que insistimos em ocultar sob percentuais ou slogans publicitários.

É nesse espelho estilhaçado que o Brasil precisa se olhar. A pesquisa encomendada oferece um retrato polido, sem rugas nem cicatrizes. Mas a morte de Laudemir devolve a imagem nua e crua de uma nação em que vidas valem desigualmente. Entre a ode à brasilidade e a barbárie cotidiana, o verdadeiro Brasil está mais próximo da rua suja de sangue do que do quadro idealizado de fé, família e orgulho nacional.

 

Paulino Motter, jornalista e gestor público.

 

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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