Com o congelamento de óvulos antes das sessões seguido de técnicas modernas de radioterapia, explica a Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), é possível manter o sonho da maternidade em pacientes diagnosticadas em idade fértil.
Receber o diagnóstico de câncer ginecológico em idade fértil costuma vir acompanhado do medo adicional da perda da possibilidade de ter filhos. Mas os avanços da radioterapia permitem que, mesmo quando a cirurgia não é viável, mulheres em tratamento tenham alternativas para preservar a fertilidade, como a criopreservação (congelamento) de óvulos antes do início das sessões. “Hoje há recursos para oferecer tratamento eficaz sem, necessariamente, interromper o sonho da maternidade”, afirma Nilceana Freitas, médica radio-oncologista do Hospital de Câncer Araújo Jorge, do Cebrom Oncoclínicas e do IMO em Goiânia-GO, e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT).
De acordo com a Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde (IARC/OMS) – Globocan 2022, o câncer do colo do útero é o mais comum entre os tumores ginecológicos, com cerca de 662 mil casos anuais no mundo, seguido por câncer de endométrio (420 mil) e de ovário (324 mil). No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 17.010 casos de câncer de colo de útero em 2025, além de 7.840 de endométrio e 7.310 de ovário. Outros tipos, menos incidentes, incluem o câncer de vulva e vagina.
“A conscientização sobre prevenção e diagnóstico precoce dos diferentes tipos de câncer ginecológico, difundida ao longo da campanha Setembro em Flor, é fundamental não apenas para aumentar as chances de cura, mas também para preservar a qualidade de vida e o futuro reprodutivo dessas mulheres que desejam ter filho após a remissão da doença”, reforça Nilceana Freitas.
CÂNCER GINECOLÓGICO EM IDADE FÉRTIL
Um estudo publicado no Journal of Clinical Oncology aponta que entre as mulheres com menos de 40 anos diagnosticadas com câncer ginecológico, mais da metade dos casos (50,5%) são de tumores malignos do colo do útero, seguidos de 24,2% de endométrio e 23% de ovário. A cirurgia com preservação da fertilidade é indicada nas fases iniciais da doença. Porém, quando a intervenção cirúrgica deixa de ser possível ou traria resultados inferiores à radioterapia, o tratamento com radiação torna-se a principal indicação, especialmente em pacientes com alto risco cirúrgico ou comorbidades.
BRAQUITERAPIA
Entre as técnicas disponíveis, a braquiterapia, que consiste na aplicação de radiação diretamente no tumor ou em áreas próximas por meio de aplicadores, é uma das modalidades mais eficazes para tumores localmente avançados. Com recursos de imagem em 2D e 3D, o planejamento é cada vez mais preciso, permitindo concentrar a radiação no alvo e reduzir impactos sobre tecidos saudáveis. Ainda assim, especialistas reforçam a importância de acompanhamento multiprofissional, que inclui fisioterapia ginecológica para minimizar efeitos tardios, como ressecamento vaginal, incontinência urinária e disfunção sexual.
Com o potencial de aumentar as chances de remissão em casos de doença localmente avançada, há a indicação de braquiterapia associada à radioterapia externa. Enquanto a radioterapia externa é feita com o paciente deitado em equipamento conhecido como acelerador linear, que dispara feixes de radiação sobre a pelve em área determinada, a braquiterapia é um outro tipo de radioterapia que emite radiação por uma fonte inserida na massa tumoral ou em região próxima. Feita de modo temporário ou permanente, a braquiterapia tem indicações clínicas para casos de outros tipos de câncer, além do colo do útero, como corpo do útero (endométrio), mama e próstata.
Na braquiterapia, a dose programada de radiação chega às células cancerígenas por meio de aplicadores, cateteres ou placas que conduzem o material radioativo de curto alcance. Inseridos com a ajuda de sedação e guiados por ultrassom, esses dispositivos são retirados após cada sessão.
Há situações em que a braquiterapia é permanente, como no tratamento do câncer de próstata, em que a fonte da radiação são cápsulas, chamadas de “sementes”, contendo o material radioativo milimetricamente posicionadas no tecido tumoral ou áreas circundantes com a ajuda de agulhas. A inserção dos aplicadores e a introdução das sementes radioativas é feita após um planejamento rigoroso.
As doses e a administração da radiação entregue pela braquiterapia são atualmente calculadas com tecnologia 2D ou 3D. Os equipamentos usados para obter as imagens necessárias a esse cálculo e para a administração da dose podem variar de acordo com a técnica utilizada. Na braquiterapia 2D, geralmente são feitas radiografias, em diferentes ângulos e posições, com os aplicadores já posicionados em relação ao tumor.
No sistema 3D, as imagens são captadas por tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM). As imagens coletadas, bidimensionais ou tridimensionais, são digitalizadas e usadas por softwares que calculam os pontos a serem irradiados, a distribuição da radiação e a intensidade das doses no tumor e tecidos normais. Em geral, as imagens tridimensionais permitem uma distribuição mais precisa da dose de radiação, focando mais nas áreas-alvo e reduzindo a dose que chega aos tecidos saudáveis circundantes.
Ao mesmo tempo em que pode oferecer um bom resultado, a radioterapia interna (como é também chamada a braquiterapia) não está isenta de riscos e complicações a longo prazo para a qualidade de vida da paciente. Como são próximos do colo do útero, órgãos como bexiga e reto também recebem uma parte da dose do tratamento e há toxicidade para esses órgãos. Pode haver, por exemplo, incontinência urinária, sangramento retal, ressecamento vaginal e disfunção sexual. Por isso, também é tão importante que as mulheres tenham acesso à fisioterapia ginecológica no período pós-tratamento.
Sobre a Sociedade Brasileira de Radioterapia
A Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), fundada em 1998, é uma associação civil, brasileira, associativa e científica de direito privado, sem fins lucrativos, que reúne e representa os médicos radio-oncologistas, legalmente registrados no Brasil. Mais informações: https://sbradioterapia.com.br/





