Um pedaço escondido do paraíso brasileiro

Guaraqueçaba, situada no litoral norte paranaense, é um verdadeiro paraíso que permanece escondido no mapa do Estado, apesar de sua proximidade com São Paulo. (Imagens da comunidade de Barbados, na Ilha do Superagui).

Localizada no coração da maior reserva de Mata Atlântica do Brasil, a cidade de Guaraqueçaba, situada no litoral norte paranaense, é um verdadeiro paraíso que permanece escondido no mapa do Estado, apesar de sua proximidade com São Paulo. Rodeada por ilhas, rios, cachoeiras e um vasto habitat repleto de aves e mamíferos, este município com pouco mais de sete mil habitantes é um dos mais antigos do Brasil, com uma história rica e fascinante.

Os visitantes têm duas opções principais para chegar a Guaraqueçaba: por via marítima, partindo de Paranaguá e desfrutando de um trajeto de aproximadamente três horas até o píer da cidade, ou por via terrestre, que é um pouco mais longa devido aos pouco mais de 80 quilômetros de estrada de terra.

Até o momento, nenhum governo conseguiu pavimentar a estrada que liga Antonina a Guaraqueçaba – tem apenas uns 20 km de asfalto –  o que faz com que a cidade permaneça isolada por terra.

Devido ao acesso complicado por via terrestre, Guaraqueçaba, apesar de estar no continente, permanece como um verdadeiro tesouro escondido na Baía de Laranjeiras. A opção preferida tanto para turistas quanto para os moradores locais é a via marítima, que oferece um percurso encantador, passando pela Ilha das Cobras na Baía de Paranaguá, seguindo em frente à Ilha das Peças e ao lado da famosa Ilha do Mel. Além disso, é possível apreciar a serena Ilha Rasa e, com sorte, avistar os golfinhos que dominam essas águas. Uma experiência única e inesquecível aguarda aqueles que exploram esse pedaço escondido do paraíso brasileiro.

HISTÓRICO

Assim como as demais cidades do litoral paranaense, Guaraqueçaba era ocupada até a primeira metade do século XVI por grupos indígenas que se distribuíam pelos estuários e baías do litoral paranaense, principalmente às margens da baía de Paranaguá. Inicialmente, a região era habitada por tupiniquins, tendo, mais ao sul do litoral paranaense e norte catarinense, a frequente presença de índios carijós.

Registros históricos estimam que havia de seis a oito mil carijós no litoral paranaense desenvolvendo atividades de lavoura e pesca. No litoral, as atividades cotidianas incluíam a caça, a pesca, coleta de ostras, mexilhões, bacucus, caranguejos, etc. Uma das provas da presença desses povos na localidade são os vestígios deixados por meio de sambaquis (que são depósitos naturais de cascas de ostras e outras conchas) encontrados na costa, em lagoas ou rios. Em Guaraqueçaba, ainda se encontram vários sambaquis em bom estado de conservação.

Com a fundação da colônia de São Vicente, em 1532, no litoral paulista, as primeiras expedições portuguesas seguiram para o litoral com a missão de explorar o complexo estuarino de Cananéia, Iguape e Paranaguá. Fontes históricas aponta atestam a presença, em 1545, de colonos lusos estabelecidos em Superagui e, entre 1550 a 1560, na Ilha da Cotinga. “Posteriormente, na intenção de capturar índios para escravizá-los, portugueses, vindos do litoral paulista, chegaram à Baía de Guaraqueçaba e ali descobriram ouro nos rios Ribeira, Açungui e Serra Negra; fixaram-se na região, iniciando as atividades de mineração no Brasil”, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Ladeada pelas baías de Paranaguá e de Laranjeiras e pela elevação da Serra do Mar, a região de Guaraqueçaba assistiu, em 1614, à chegada de Diogo de Unhatte, tabelião da ouvidoria de São Vicente, que havia obtido a sesmaria, denominada ‘Paranaguá’, localizada entre os rios Ararapira e Superagui – que pertence ao atual município de Guaraqueçaba. O povoamento mais efetivo pelos europeus na localidade aconteceu no decorrer do século XVII por meio da atuação do capitão-mor, Gabriel de Lara.

Após o fim do ciclo de mineração na região as comunidades se mantiveram por meio da agricultura de subsistência. A população foi crescendo e o cultivo e comércio de arroz, cana-de-açúcar, aipim, banana, café, milho e feijão se intensificaram.

Ainda segundo informações históricas do IBGE, “os missionários jesuítas, vindos de Cananéa fundaram no porto de Superagui, um estabelecimento agrícola e ao mesmo tempo religioso, para facilitar a catequese, visto que a população estava disseminada ao longo dos rios”. Já em 1838, Cypriano Custódio de Araújo e Jorge Fernandes Corrêa, antigos proprietários de terras, construíram a Capela do Bom Jesus dos Perdões, na encosta do Morro Quitumbê.

“Com o passar do tempo foram surgindo habitações em torno da capela e em pouco tempo estava formando um novo povoado que foi elevado à categoria de Freguesia em 1854”, escreve o pesquisador Faissal El-Khalib. Já em 11 de março de 1880, a localidade foi elevada à categoria de Vila, desmembrando-se de Paranaguá.

Em meados do século XIX, muitos imigrantes europeus, principalmente suíços, italianos e franceses, instalaram-se em Superagui, onde desenvolveram agricultura com uso de canais de irrigação. Produziram arroz, uva para fabricação de vinho, café e mandioca. Segundo o portal oficial da Prefeitura da cidade, “as duas primeiras décadas do século XX foi o período da maior prosperidade em Guaraqueçaba, quando navios carregados de banana e madeira faziam linhas até Argentina e Paraguai. Nessa época, agricultores paulistas, em busca de terras férteis e baratas, criam as comunidades de Pedra Chata e Batuva”.

Mas, a crise econômica de 1929 provocou reflexos também na região, causando dificuldades na economia agrícola, já que a produção era quase que totalmente voltada à exportação. Neste período, em 1938, a Vila foi extinta e anexada novamente como Distrito ao Município de Paranaguá. Guaraqueçaba voltou a figurar como município autônomo somente em 1947.

Nos anos 50, instalaram-se as primeiras fábricas de palmito e muitos agricultores migraram para o corte de palmito, diminuindo assim, o uso de parcelas de terra para agricultura. Com a abertura da rodovia ligando Guaraqueçaba a Antonina, a PR-405 (única via de acesso terrestre à região), um novo processo de ocupação foi iniciado.

O governo federal liberou créditos subsidiados e reduziu impostos para quem quisesse cultivar café, palmito e criar búfalos. Assim, muitos abriram suas áreas, venderam as madeiras, introduziram o búfalo (que degradou as florestas de planície) e não produziram, nem manejaram o café e o palmito. Somente nos anos 80 reconheceu-se que o estímulo dado às atividades agrícolas convencionais sem fiscalização, acarretou a degradação e a acelerada descaracterização ambiental da região, assim como o empobrecimento gradual da população que ali morava.

A partir de então, valorizou-se a região de Guaraqueçaba, procurando resguardá-la do uso indiscriminado e intensivo, criando-se algumas Unidades de Conservação, na intenção de disciplinar e orientar as atividades e valorizar o patrimônio natural existente.

 

 

 

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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