As repúblicas alternativas. Depois da democrática, de clima leve, e paz construtiva de Jandaia, vem a da toga, de Pato Branco
O Paraná, politicamente, sempre teve vocação para criar “repúblicas” alternativas — pequenos cantos exóticos, mas sem hino, bandeira ou Constituição. Bastava uma praia, uma mesa de bar, um campo de futebol ou um terreno para cavalgadas. Enquanto outros estados se perdiam em ideologias, dogmas e salvadores da pátria, o Paraná cultivava o sarcasmo político, amargo e revigorante.
Foi assim com a célebre “República de Curitiba”, invenção, primeiro, da Lava Jato — hoje, um produto com prazo de validade vencido, mas que chegou a ser vendido como remédio milagroso contra a corrupção. Lula mesmo, com ironia profética, avisou: cuidado com essa “República de Curitiba”. Não deu outra: acabou experimentando a fórmula na própria pele, direto para a Superintendência da PF.
Antes disso, já tínhamos tido a “República de Porto Belo” do então governador Beto Richa, o “Canguiri” de Requião, com cavalgadas que lembravam mais uma cavalgadura política do que projetos de Estado. Sem esquecer os dias de ouro da caxeta, do futebol na Paraná Equipamentos, das conspirações no bar do Bourbon, onde José Richa comandava e até do “Aras do Aníbal”, onde Jaime Lerner usava o “chapéu pensador” para desenhar o Paraná.
Tudo isso sem o ranço da idolatria que, no resto do Brasil, se converteu em seitas políticas raivosas. Aqui sempre prevaleceu o deboche democrático: a política como jogo de cartas, cerveja e ironia, não como guerra santa.
Agora, sob os comandos de Ratinho Junior e João Ortega, a moda é a “República de Jandaia”, vendida como bucólica, nada de uso predatório, só paz, chimarrão e selfies no interior, com direito a aparição do apresentador Ratinho.
O Paraná não descansa: no horizonte, acena a “República de Pato Branco”, desta vez com chancela nada menos que do STF. Imaginem a cena: toga sobre chimarrão, habeas corpus discutido em mesa de bar ou na Unila.
No fundo, é isso: enquanto o Brasil pega fogo com idolatrias tóxicas, o Paraná segue exportando repúblicas irônicas, democráticas e, acima de tudo, pitorescas. Uma tradição que, convenhamos, já merecia virar patrimônio cultural.





