Por Hamilton Robledo – Alergias, risco de doenças crônicas e desequilíbrio do intestino são consequências do uso excessivo dessa medicação.
Com o aumento dos quadros respiratórios e viroses ao longo do ano, muitos pais acabam seguindo rapidamente a recomendação de prescrição de antibióticos para aliviar os sintomas das crianças. No entanto, mesmo quando obtidos de forma adequada, o uso repetido e sem necessidade real pode trazer prejuízos importantes à saúde infantil. Em muitos casos, especialmente em infecções virais, o antibiótico não é indicado e outras medidas podem ser suficientes no tratamento inicial.
Em uma dor de garganta, por exemplo, a causa pode ser viral ou bacteriana, e a confirmação é feita por meio do exame de estreptococo, solicitado quando há sinais que sugerem infecção bacteriana. Nem toda inflamação requer antibiótico e a avaliação clínica cuidadosa ajuda a evitar tratamentos desnecessários.
O uso frequente desses medicamentos nos primeiros anos de vida está associado a desequilíbrios no intestino, maior propensão a alergias, risco de doenças crônicas e possíveis impactos no desenvolvimento neurológico. Explicamos como esses efeitos surgem e reforça a importância de um acompanhamento médico criterioso.
Os antibióticos eliminam tanto bactérias nocivas quanto as benéficas, essenciais para a formação da microbiota intestinal. Esse desequilíbrio pode causar diarreias, desconfortos gastrointestinais e enfraquecimento da imunidade. Em situações de uso excessivo, há ainda relatos de associação com atrasos no desenvolvimento.
O cenário reforça a necessidade de atenção. Quando a criança recebe antibiótico sem necessidade, especialmente para quadros virais, abrimos espaço para problemas que vão além daquele episódio de doença. A microbiota se altera, a imunidade perde eficiência e o risco de condições futuras aumenta. É uma interferência que pode acompanhar o indivíduo por muitos anos.
Outro ponto de preocupação é a resistência bacteriana. O uso inadequado fortalece microrganismos que deixam de responder a tratamentos tradicionais, reduzindo as opções terapêuticas para infecções graves. Mesmo com esses riscos, o antibiótico continua indispensável quando há infecção bacteriana comprovada, como pneumonia, infecção urinária ou otite supurada. A chave, segundo o especialista, é discernir quando o medicamento é realmente necessário e evitar que se torne a primeira resposta a qualquer febre ou mal-estar.
Orientações a pais e cuidadores a adotarem algumas práticas:
• Usar antibióticos somente diante de confirmação ou forte suspeita de infecção bacteriana, sempre com indicação médica;
• Evitar automedicação e não utilizar sobras de tratamentos anteriores;
• Não insistir em antibióticos para quadros virais;
• Manter vacinas e consultas de rotina em dia;
• Observar se a criança melhora com hidratação, descanso e controle de sintomas antes de considerar o uso do medicamento
Reforça-se que a responsabilidade é compartilhada entre pais e profissionais de saúde. Quando usamos antibióticos com critério, protegemos não só o organismo da criança, mas também todo o arsenal que a medicina dispõe para tratar infecções sérias. Prevenção, acompanhamento adequado e informação são as melhores ferramentas para garantir um crescimento saudável.
(*) Hamilton Robledo é graduado em Medicina pela Universidade de Mogi das Cruzes, especialista em Pediatria, membro do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP). Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) e Coordenador do Serviço de Pediatria da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo na unidade Santana.





