Zezé Di Camargo: o ovo da serpente no show business

O lixo travestido de “conteúdo editorial” que tomou conta das redes sociais nesta semana teve como protagonista o cantor sertanejo Zezé Di Camargo. O motivo do alvoroço foi sua recusa em participar de um especial de Natal do SBT, simplesmente porque a emissora convidou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, para o lançamento de um novo programa jornalístico.

Trata-se de um episódio que escancara a mediocridade e a pequenez de alguém que, em vez de manter seu norte na música — área em que construiu carreira e conquistou admiradores —, optou por descer ao pântano da militância política rasteira.

Ao defender Jair Bolsonaro ou o bolsonarismo, Zezé não demonstra qualquer preocupação com projetos de futuro para o Brasil, mas apenas com a reafirmação de um posicionamento ideológico estreito e excludente.

Pouco importa se o convite partiu do SBT. Poderia ter sido da Globo, da Band ou de qualquer outra emissora. O lançamento de um produto jornalístico relevante justifica, sim, a presença de um chefe de Estado — independentemente de quem ocupe o cargo. Isso se chama institucionalidade, algo que parece faltar a quem confunde preferência política com boicote infantil.

O cantor, ao que tudo indica, não dimensionou o tamanho do ridículo de sua atitude e agora terá de arcar com as consequências. Como tantos outros artistas, Zezé Di Camargo sempre contou com o apoio irrestrito dos meios de comunicação para alcançar sucesso, visibilidade e fortuna. Agora, age como o clássico “ovo da serpente”: cospe no prato de um veículo que, em passado recente, certamente contribuiu para sua projeção nacional.

Há ainda um detalhe que não pode ser ignorado. O mesmo artista já foi beneficiado por políticas públicas de incentivo à cultura, como a Lei Rouanet, além de contratos milionários firmados com prefeituras Brasil afora. É razoável supor que, nesses casos, ele jamais se preocupou em perguntar se o prefeito que bancava seu cachê era do PT, do PL, do PSDB, do MDB ou de qualquer outro partido.

Hoje, abrimos o Instagram, o Facebook ou o TikTok em busca de informação e interesse público e somos obrigados a nos deparar com esse tipo de lixo arrogante — vindo de alguém que já protagonizou vexames públicos, inclusive em shows marcados pelo excesso de bebida.

Tenham dó.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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