O fim dos famosos ‘Orelhões”, que marcaram época

Fim das concessões de telefonia fixa decreta a retirada em massa dos equipamentos. Ainda existem 38 mil no Brasil, cerca de 2,2 mil no Paraná. Apenas cidades sem outra opção manterão o serviço até 2028.

Com o fim das concessões de telefonia fixa, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) está iniciando neste mês de janeiro a retirada definitiva de telefones públicos. Os famosos orelhões, que chegaram a ser símbolo nacional, serão retirados gradativa e definitivamente das ruas do Brasil. Apenas as cidades sem outra opção de comunicação manterão o serviço até 2028.

Dados da Anatel indicam a existência, ainda, de 38 mil aparelhos espalhados pelo País e que se somam a outros 4 mil que estavam em manutenção. As cinco empresas responsáveis pelos aparelhos são Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefonica, que tiveram extinta a concessão. Agora, a retirada, que já vinha ocorrendo nos últimos anos – em 2020 o Brasil ainda contava com 202 mil aparelhos nas ruas e locais de concentração -, passa a ter a remoção em massa de carcaças e orelhões desativados.

Os orelhões surgiram no Brasil em 1971, período muito distante da era dos celulares. Sua criação é direcionada ao nome da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. Não por acaso, inicialmente os aparelhos eram referidos pelos nomes de Chu I e Tulipa. Cabines telefônicas existiam em outros países, mas a criação da arquiteta, enquanto trabalhava em uma companhia telefônica, se tornou icônica pelo seu design, reproduzido em outros países como Peru, Angola, Moçambique e China. Além de diferente, o formato tinha uma justificativa funcional: a qualidade acústica. O som entrava na cabine e era projetado para fora, diminuindo o ruído na ligação e protegia quem falava do barulho externo.

Foto do calçadão da Rua XV em Curitiba, na década de 1970: concorrência para uso do telefone.

Desde então, nas décadas seguintes, os equipamentos foram essenciais para a comunicação dos brasileiros. O fenômeno se estenderia até o começo dos anos 2000. Desde o início funcionavam como facilitador de contatos urgentes, ajudavam a construir histórias, serviam como ponto de encontro e, muitas vezes, eram o único meio de falar com alguém fora de casa. Foi ali, ao ouvir o clássico “chamada a cobrar”, que muita gente esperava ansiosa até cair a ficha — literalmente — para completar a ligação.

Os telefones públicos perderam função com o advento dos celulares.

Recentemente, a cabine telefônica voltou a ganhar evidência entre as gerações mais jovens ao aparecer no cartaz do filme “O Agente Secreto”, vencedor do Globo de Ouro e indicado pelo Brasil ao Oscar 2026. Na imagem, Marcelo, personagem vivido por Wagner Moura, surge dentro da cabine oval segurando um telefone público.

No Paraná, que até pouco tempo era o segundo estado com mais telefones públicos ativos antes da retirada em massa, tinha em 2024 um total de 2.208 orelhões ativos (São Paulo contava com 27.962). Este número vem decrescendo consideravelmente nos últimos meses, entre os 399 municípios, pelo menos 61 deles já não contam com aparelhos disponíveis em funcionamento. Ainda, outros têm disponível apenas um equipamento, casos como os de Castro, Santa Helena, Assis Chateaubriand, Prudentópolis, Tunas do Paraná e Adrianópolis. Outras, como Campo Largo e Guaraqueçaba contam com dois. A região de Londrina, onde a Sercomtel é a operadora, detém ainda o maior volume de orelhões. Somente Londrina dispunha de 519, enquanto a vizinha Tamarana tinha 32.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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