Reprovação de cursos de medicina traz alerta sobre a qualidade das perícias médicas

Por Caroline Daitx – “A credibilidade da medicina pericial depende diretamente da excelência da formação médica”.

A divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), conduzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), revelou que mais de 30% dos cursos de Medicina avaliados no país foram considerados insatisfatórios, o que evidencia sérias deficiências na qualidade do ensino médico no Brasil. Médica perita comenta como esse resultado compromete a atuação dos profissionais que pretendem atuar na área pericial.

De acordo com o Ministério da Educação, os cursos reprovados estão sujeitos a medidas de supervisão, como suspensão de novas vagas, além de restrições ao acesso a programas federais, como Fies e Prouni. A iniciativa busca conter a expansão desordenada de graduações médicas e proteger a formação dos futuros profissionais de saúde.

No entanto, especialistas alertam que os impactos da má formação médica vão além da assistência clínica, alcançando áreas sensíveis como a medicina pericial, que exerce papel central em decisões judiciais, previdenciárias e administrativas.

Para a médica Caroline Daitx, especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, pós-graduada em Gestão da Qualidade e Segurança do Paciente, os resultados do Enamed expõem um risco estrutural à atuação pericial no país. “A perícia médica exige não apenas conhecimento clínico sólido, mas domínio de princípios legais, éticos e de redação técnico-científica. Uma formação médica deficiente compromete profundamente a capacidade do perito de elaborar laudos precisos, coerentes e tecnicamente sustentáveis”, afirma.

Segundo a especialista, laudos mal elaborados podem influenciar de forma equivocada sentenças judiciais, concessão ou negativa de benefícios previdenciários, além de violar direitos fundamentais das partes envolvidas. O próprio Código de Ética Médica estabelece que é dever do perito “empregar o melhor de sua capacidade profissional para elucidar a verdade dos fatos” (Resolução CFM nº 2.217/2018, art. 92), o que pressupõe formação adequada e atualização constante.

Riscos éticos, civis e criminais para médicos malformados

A avaliação negativa de cursos pelo Inep também acende um alerta para os próprios profissionais egressos dessas instituições. De acordo com a profissional, médicos peritos formados em cursos considerados insatisfatórios estão mais expostos a riscos profissionais e jurídicos. Entre eles, destacam-se:

  • Responsabilização ética: por emitir pareceres sem o devido embasamento científico, em violação ao Código de Ética Médica;
  • Responsabilização civil: quando erros ou omissões em laudos causam danos a terceiros, com possibilidade de indenizações;
  • Responsabilização criminal: em situações de falso laudo ou negligência com repercussão penal, conforme o artigo 342 do Código Penal.

“Esses riscos se intensificam quando há falhas na formação prática, que é essencial para uma atuação pericial segura, técnica e juridicamente responsável”, ressalta a médica.

Embora as punições aplicadas aos cursos mal avaliados representem um avanço regulatório, especialistas consideram que elas não são suficientes para garantir a melhoria efetiva da formação médica — especialmente na área pericial.

Para a perita, é necessário ir além das sanções administrativas. “Melhorar a formação dos futuros médicos peritos exige supervisão rigorosa da qualidade pedagógica, inclusão estruturada de conteúdos de medicina legal, perícia médica e ética profissional nos currículos, além de incentivo à residência médica e à educação continuada.”

Ela também defende o fortalecimento do controle de qualidade por conselhos de classe e entidades especializadas, como a Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícia Médica (ABMLPM). A especialista destaca que a credibilidade da medicina pericial depende diretamente da excelência da formação médica. “A perícia não pode ser tratada como área acessória. Trata-se de uma especialidade com impacto direto na Justiça, na segurança jurídica e nos direitos das pessoas.”

Por fim, Daitx reforça a necessidade de políticas públicas integradas entre o Ministério da Educação, o Conselho Federal de Medicina e o Poder Judiciário, para assegurar que apenas profissionais devidamente qualificados assumam a função de peritos médicos no Brasil.

(*) Caroline Daitx é médica especialista em medicina legal e perícia médica. Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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