O Paraná não pode pagar o preço de mais um erro

Quem acompanha a vida política e econômica do Paraná, desde a redemocratização, tem um recorte importante de cada governo, as análises das principais decisões e dos discursos e até o registro das transformações que moldaram um estado moderno e de referência nacional e internacional. Parte das ações foi responsável por avanços notáveis, outras reveladoras de impasses que exigiram correção de rumos.

Durante estes anos, foi possível acompanhar o desempenho de governadores comprometidos com o Estado, dentre eles, Ney Braga, Paulo Pimentel, Jaime Canet Júnior, José Richa, Alvaro Dias… Todos nos deixaram um legado de construção, paz, harmonia e prosperidade. Este é o nosso Paraná.

O atual governo de Ratinho Junior também prega a paz, união e tolerância, abominando gritarias, histerismos, confrontos, radicalização e, principalmente, o ódio. Os paranaenses já consagram o governador entre os melhores que comandaram o Paraná, uma liderança forte que transformou o Paraná no maior supermercado do mundo.

No entanto, o governador também tem as vicissitudes de uma trajetória política. Ao mesmo tempo em que alça um voo nacional rumo à Presidência da República, enfrenta um dilema doméstico clássico e perigoso: como conduzir a sucessão estadual sem trair aliados, rachar o partido, seu grupo de apoio, sua base parlamentar e popular e, no limite, sem entregar o governo a um aventureiro político travestido de salvador da pátria que, acima de tudo, fomenta o ódio.

A tentativa de acomodar o senador Sérgio Moro (União Brasil) no centro do debate político paranaense pode ter efeitos nocivos, como todos que acompanharam o que aconteceu em 2022. Um erro estratégico, acabou permitindo que o Paraná entregasse uma cadeira no Senado a para um político sem compromisso com o Paraná e com histórico recente de rupturas, incoerências e oportunismos.

Moro ganhou, mas não se integrou. Ocupa o cargo como palanque permanente e atua mais como candidato vitalício do que como senador do Estado.

Repetir esse erro na disputa pelo Governo do Estado é mais que um salto no escuro, senão um descalabro. O Palácio Iguaçu não pode virar prêmio de consolação para políticos errantes, cujo capital é retórico e cujo projeto pessoal sempre falou mais alto do que qualquer construção coletiva. Entregar o Paraná a Moro significa romper com o legado de governadores com densidade política e compromisso institucional.

A preferência pelo secretário das Cidades, Guto Silva, aliado de primeira hora, fiel e competente, coloca a amizade, gratidão e viabilidade eleitoral no tabuleiro da sucessão. Guto Silva é reconhecido como um bom gestor, formulador de políticas públicas, respeitado, mas procura  — ao menos até agora — se tornar um nome natural de consenso no PSD e não está sendo fácil.

A candidatura do Secretário das Cidades pode provocar fissuras no partido que, hoje, abriga dois pré-candidatos robustos: o presidente da Assembleia Legislativa do Estado, Alexandre Curi, e o ex-prefeito de Curitiba, Rafael Greca.

Greca carrega recall eleitoral, imagem urbana consolidada e vitórias recentes, inclusive sobre o campo bolsonarista-morista em Curitiba. Curi, por sua vez, controla a engrenagem legislativa, tem capilaridade no interior e trânsito amplo entre forças políticas diversas. Ambos se sentem legitimados. Ignorá-los ou mantê-los indefinidamente em banho-maria é receita conhecida para ressentimento, debandada e enfraquecimento partidário.

O governador, que vai disputar a Presidência da República, deve, antes, cuidar do seu próprio canto e evitar rachas partidários aliados humilhados e sucessão mal resolvida. Essa fratura será exposta, pode custar caro aos paranaenses e até comprometer o projeto político nacional.

Em política, o Paraná já viu vacas voarem. Mas também já aprendeu que aventureiros morais e acordos mal costurados costumam cobrar seu preço. Os atalhos sugeridos ou em constante pressão podem acabar sacrificando exatamente o legado construído no próprio Estado.

O ano de 2022 está presente na memória e no imaginário popular. A força-tarefa, com aliados como Alexandre Curi e Rafael Greca, saiu vitoriosa nas eleições para a Prefeitura de Curitiba, tirando a morista Cristina Graeml de circulação.

Recentemente, o governador do Paraná disse que poderia sustentar uma pré-candidatura moderada à Presidência da República, no que está correto, dando as costas à polarização entre a esquerda e a direita. Este norte poderá conduzir sua travessia política ao Palácio do Planalto. Antes, porém, Ratinho Júnior deve ouvir a voz do povo para não quebrar louças na própria casa.

Pedro Ribeiro, jornalista

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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