Por Hiram Nicolau –
O Pronto-Socorro Adulto é, por definição, um ambiente de alta complexidade decisória. Cada minuto é determinante para aliviar a dor, reconhecer sinais de gravidade, iniciar condutas adequadas e direcionar o paciente com segurança. Ao mesmo tempo, o crescimento contínuo da demanda, a necessidade de padronização assistencial e a diversidade dos quadros clínicos tornam o Pronto Socorro Adulto um dos pontos mais desafiadores e mais promissores do sistema de saúde para a aplicação responsável de tecnologias digitais.
Nesse contexto, a incorporação da Inteligência Artificial (IA) na saúde tem avançado de forma consistente no Brasil, não como substituta do cuidado humano, mas como instrumento de apoio à qualidade, à segurança e à eficiência dos processos assistenciais. Em fluxos intensos e ininterruptos, como os da urgência e emergência, soluções tecnológicas bem governadas tornam-se aliadas estratégicas para ampliar a capacidade de resposta das equipes e reduzir variabilidades indesejadas no atendimento.
Um dos principais gargalos do Pronto-Socorro Adulto é a fragmentação da informação clínica. Em poucos minutos, o profissional precisa reunir queixa principal, histórico, comorbidades, uso de medicamentos, alergias, fatores de risco, sinais vitais e hipóteses diagnósticas, somando a dados frequentemente incompletos, pacientes fragilizados e sob intensa pressão de tempo. Esse cenário amplia o risco de falhas de comunicação, retrabalho e decisões tomadas com base em informações parciais.
É nesse ponto que soluções de IA passam a exercer papel central. Atuando especialmente na pré-triagem, na estruturação da anamnese e na padronização da coleta de dados clínicos, a tecnologia organiza informações essenciais de forma ágil e consistente, permitindo que o médico concentre sua atenção no raciocínio clínico, na tomada de decisão e na relação direta com o paciente.
Essa abordagem vem sendo aplicada de forma concreta pela Samel, grupo de saúde sediado no Amazonas que implantou a SAMIA (Samel Inteligência Artificial) no Pronto-Socorro Adulto com o objetivo de apoiar o fluxo assistencial, padronizar informações clínicas e organizar o processo de atendimento, sempre como suporte à decisão médica, sem substituir o julgamento profissional.
O contexto operacional é desafiador já que em média o Pronto-Socorro Adulto registra entre mil e mil e trezentos atendimentos diários,
o que torna a gestão do tempo e do fluxo assistencial fatores críticos de qualidade, segurança e sustentabilidade do serviço. Nesse cenário, o uso de Inteligência Artificial deixa de ser um diferencial tecnológico e passa a ser um instrumento essencial para a redução do tempo de espera dos pacientes e para a fluidez do atendimento.
Com o apoio da SAMIA, os resultados já são mensuráveis contando hoje com mais de 70% dos pacientes do Pronto-Socorro Adulto que concluem todo o ciclo de atendimento, desde a chegada até a alta em até 30 minutos. Esse desempenho reflete a capacidade da IA de organizar informações clínicas desde os primeiros momentos do atendimento, apoiar a priorização adequada dos casos e reduzir gargalos operacionais historicamente associados à superlotação e à demora no atendimento.
Desde a implementação, a solução também alcançou 97,7% de concordância clínica na estruturação da anamnese, reforçando seu papel como ferramenta confiável de apoio à prática médica. Ao reduzir retrabalho, ruídos de informação e etapas desnecessárias, a IA contribui para maior previsibilidade do fluxo, melhor utilização da capacidade instalada e diminuição da sobrecarga das equipes assistenciais.
Esses ganhos operacionais produzem um efeito direto na experiência do paciente e na qualidade do cuidado. Ao assumir tarefas estruturantes e repetitivas, a tecnologia libera tempo para aquilo que é insubstituível: o diálogo, o contato olho no olho, a escuta qualificada e uma assistência verdadeiramente humanizada.
É importante destacar que a adoção de IA no Pronto Socorro Adulto não se resume à implementação de uma ferramenta tecnológica. Trata-se de uma transformação do modelo operacional e cultural. Para alcançar ganhos reais de assertividade, reduzir riscos relacionados a medicamentos e fortalecer protocolos de segurança, é indispensável investir também em governança, capacitação das equipes e integração com os processos existentes.
Por isso, a adoção sustentável da Inteligência Artificial só se consolida quando há liderança comprometida com a mudança, capaz de apoiar projetos inovadores de forma responsável, guiada por princípios de ética, transparência, segurança da informação e benefício coletivo. Da mesma forma, o engajamento de médicos, enfermeiros e equipes assistenciais é essencial para que a tecnologia seja incorporada ao cotidiano com confiança, consistência e resultados concretos.
Ao final, é fundamental reforçar que a tecnologia não humaniza sozinha, mas, ela cria as condições para que o cuidado humano aconteça com mais tempo, menos desgaste e maior segurança. Quando bem governada, a IA deixa de ser sobre substituir decisões e passa aser sobre sustentar decisões melhores, ampliando a qualidade do cuidado e protegendo quem cuida.
(*) Hiram Nicolau, diretor comercial do Grupo Samel.





