Visão jurídica e pericial sobre o impacto da plataforma Medicina Segura CFM

Por Gustavo Clemente e Caroline Daitx – “A plataforma transforma denúncias isoladas em inteligência organizada”.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) lançou a plataforma nacional Medicina Segura CFM, criada para centralizar denúncias e fortalecer o combate ao exercício ilegal da medicina no país. A iniciativa surge em meio ao aumento expressivo de procedimentos invasivos realizados por pessoas sem formação médica, muitos deles com desfechos graves.

Segundo o Conselho, o novo sistema permitirá transformar dados dispersos em inteligência organizada, fortalecendo a atuação conjunta de conselhos regionais, órgãos sanitários, polícias e Ministério Público. A ferramenta funcionará como um canal unificado para que cidadãos, pacientes e profissionais de saúde registrem denúncias de forma segura e confidencial. Ao reunir essas informações em um banco nacional, será possível mapear padrões, identificar reincidências e acelerar medidas de fiscalização e responsabilização.

Para a médica Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, a plataforma representa um avanço significativo. “A plataforma transforma denúncias isoladas em inteligência organizada. Ao centralizar dados em âmbito nacional, é possível identificar padrões, reincidência de infratores e a disseminação de práticas perigosas em diferentes regiões”, afirma.

Daitx alerta para a explosão de complicações relacionadas a procedimentos estéticos realizados por pessoas sem qualificação. Ela destaca que “há casos de septicemia, paralisias, deformidades permanentes e impactos psicológicos severos, como ansiedade e depressão. Estamos falando de consequências muitas vezes irreversíveis”. Para subsidiar investigações e processos, a perita reforça a importância de reunir evidências robustas — fotos, vídeos, prontuários, conversas e recibos que ajudem a caracterizar o crime e identificar o suposto profissional.

Além da ótica pericial, a iniciativa também tem forte repercussão jurídica. O advogado Gustavo Clemente, especialista em Direito Médico e em Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), sócio do escritório Lara Martins Advogados, avalia que a criação da plataforma é juridicamente sólida e de acordo com o papel institucional do CFM. “Trata-se de um ato esperado e amparado na competência legal do Conselho de zelar pela profissão e proteger a sociedade. O combate ao exercício ilegal da medicina é matéria de inequívoco interesse público”, afirma. Ele ressalta, porém, que o cumprimento da Lei Geral de Proteção de Dados dependerá da forma como a anonimização será implementada pelo sistema. “Se o dado for verdadeiramente anonimizado, ele deixa de se submeter à LGPD. Contudo, se estivermos diante de pseudoanonimização, com possibilidade de reidentificação, os dados permanecem pessoais e exigem bases legais como a proteção da vida e a tutela da saúde”, explica.

Clemente também chama atenção para o comportamento dos denunciantes, que devem relatar fatos com objetividade e responsabilidade. Segundo ele, “denunciantes devem se ater estritamente à veracidade dos fatos para evitar riscos de responsabilização civil ou penal, como eventual acusação de denunciação caluniosa”. No caso de médicos, há ainda o dever ético de sigilo profissional, motivo pelo qual o advogado recomenda fornecer “apenas o mínimo indispensável de informações capazes de identificar o paciente, preservando ao máximo sua privacidade”.

Ambos os especialistas destacam a importância da atuação integrada entre CFM, Conselhos Regionais, autoridades sanitárias e órgãos de investigação. Nas palavras de Daitx, “quando as instituições atuam de forma coordenada, conseguem identificar redes criminosas complexas e proteger efetivamente a população”. Para o advogado, essa articulação também reduz riscos para os próprios médicos que notificam irregularidades, já que passam a agir por meio de um canal institucional regulamentado, garantindo maior segurança jurídica.

Com a nova plataforma, o CFM reforça sua estratégia de prevenção, fiscalização e proteção da população diante do aumento de práticas perigosas conduzidas por pessoas sem habilitação. Ao transformar denúncias dispersas em informação estratégica e promover a atuação coordenada entre diferentes esferas, a Medicina Segura CFM se consolida como um instrumento decisivo para a valorização do exercício ético da medicina e para o fortalecimento da segurança em saúde no Brasil.

(*) Caroline Daitx é médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.

(**) Gustavo Clemente é sócio do Lara Martins Advogados, especialista em Direito Médico e da Saúde, pós-graduado em Administração Hospitalar (IPEP) e em Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Presidente do Sindicato dos Hospitais do Estado de Goiás (SINDHOESG). Também integra o Conselho Fiscal da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade do Estado de Goiás (AHPACEG).

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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