Corrida presidencial 2026: Ratinho Junior em um mercado eleitoral disputado

Ratinho Junior na campanha presidencial

O baile já começou e Ratinho Junior ensaia passos de dança para 2030.

 A divulgação pela GloboNews de que o PSD baterá o martelo no dia 27 de março sobre a candidatura de Ratinho Jr. à Presidência da República veio um dia depois do assédio de Flávio Bolsonaro, que teria oferecido ao popular governador paranaense a vice. Se confirmado, o anúncio pode ser lido de muitas formas. A mais ingênua seria tomá-la pelo valor de face: um partido decidido, um candidato lançado, uma estratégia definida. A leitura mais precisa, contudo, é outra: o que se passa é um leilão disfarçado de convenção. O melhor lance poderá levar o PSD para o seu palanque.

O partido-ônibus de Gilberto Kassab é hoje o ativo político mais disputado no mercado eleitoral. Lula o corteja. Flávio Bolsonaro entrou atrasado na disputa, mas aumentou o lance e já foi logo oferecendo a Ratinho Jr. a vaga de vice na chapa presidencial. Nesse contexto, o anúncio de uma candidatura própria funciona menos como declaração de intenções e mais como instrumento de pressão — um balão de ensaio lançado para testar as águas e elevar o preço da noiva mais desejada do baile.

A vitrine e o projeto de longo prazo

Interlocutores que acompanham de perto o círculo dos Ratinhos — o governador e seu pai, o apresentador — são categóricos: o horizonte real é 2030, não 2026. A candidatura em curso seria uma operação de construção de imagem nacional, uma tribuna de quatro anos de exposição midiática que o Paraná, por maior que seja seu eleitorado, não consegue oferecer sozinho.

O raciocínio tem sua lógica. Ratinho Jr. recusa a cadeira do Senado — caminho tradicional para quem encerra um mandato de governador sem perspectiva imediata de Brasília — e aposta que disputar a presidência, mesmo sem chances reais de vitória, projeta mais do que administrar uma bancada minoritária no Congresso. Em 2030, o argumento seria: “já disputei, tenho trajetória, estou pronto”.

O problema é que a vitrine tem custos, e nem sempre exibe o que seu dono gostaria.

A faixa estreitíssima da terceira via

As pesquisas mais recentes não oferecem terreno fértil para uma candidatura de centro competitiva. Lula parece estar em seu piso eleitoral, com tendência de recuperação ao longo da campanha — eleitor que votou nele antes tende a retornar quando o pleito se aproxima. Flávio Bolsonaro surpreendeu ao crescer com velocidade e enterrar as apostas de que Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, seria o candidato preferido da Faria Lima e dos grandes grupos de mídia.

Nesse tabuleiro, Ratinho Jr. entra numa disputa de erosão, não de crescimento. Os votos que ele pode conquistar virão, em sua maioria, de Flávio Bolsonaro — o que tornará sua candidatura mais incômoda para a direita do que para o campo progressista. Os setores da Faria Lima e da mídia que ainda resistem ao bolsonarismo familiar podem testar suas teses por meio de Ratinho Jr., mas dificilmente se comprometerão publicamente, com financiamento e campanha, com o risco de parecerem ter abandonado Flávio.

A bateria de Flávio ocupa a avenida

A tentativa de Flávio Bolsonaro de incorporar Ratinho Jr. como vice é um dado revelador. Significa que o candidato do PL reconhece a utilidade do governador paranaense para ampliar seu apelo de centro. A recusa de Ratinho Jr., por sua vez, é igualmente significativa: aceitar a vice seria subordinar seu projeto ao de Flávio, inviabilizando qualquer trajetória autônoma para 2030.

A equação muda completamente se Flávio vencer. Um presidente de primeiro mandato domina o cenário para 2030 — e se perder, provavelmente tentará novamente. De qualquer forma, Ratinho Jr. sai em melhor posição se Lula vencer, pois o presidente petista não poderá concorrer novamente. Ninguém dirá isso em público. Mas a aritmética está posta.

Como consequência da candidatura de Ratinho Jr., a aliança entre Flávio e o colega senador Sergio Moro no Paraná — onde Moro lidera todas as pesquisas para o governo estadual e é rejeitado pelo seu próprio partido, o União Brasil — ganha força. Seria uma represália elegante, mas eficaz. Flávio já teria oferecido a sigla do PL para a ambição do inquisidor das Araucárias.

O PSD como noiva mais cobiçada

O ponto central da análise não é se Ratinho Jr. tem chances reais em 2026. É que a candidatura serve, antes de tudo, aos interesses estratégicos do PSD enquanto organização. Kassab lidera um partido de governadores, prefeitos e parlamentares pragmáticos. Ensaiar o lançamento de um candidato próprio à presidência — mesmo que simbólico —aumento o poder de barganha do PSD com ambas as coligações que já polarizaram a corrida presidencial. Levantar adianta a empreitada de uma eventual candidatura de Ratinho Jr. São outros quinhentos.

O que o PSD busca é aumentar o seu cacife na costura de alianças eleitorais estaduais para depois liberar seus filiados para apoiarem Lula ou Flávio conforme o vento regional.

O partido já sinalizou exatamente isso: seus membros poderão fazer campanha para quem bem entenderem. Não há unidade de propósito, há maximização de posicionamento. A candidatura de Ratinho Jr. é o guarda-chuva institucional que cobre essa dispersão calculada.

Quanto ao fundo eleitoral, a prioridade declarada é eleger deputados e senadores — não financiar uma campanha presidencial sem perspectiva de vitória. O tempo de TV estará garantido para Ratinho Jr., mas a estrutura e o dinheiro seguirão onde houver mais retorno.

O flanco paranaense: risco subestimado

Há um risco que o grupo Ratinho não parece disposto a subestimar: o estado do Paraná. Sergio Moro lidera com folga nas pesquisas para o governo estadual. O candidato preferido de Ratinho Jr. para a sucessão, Guto Silva, mal ultrapassa 4% das intenções de voto — cerca de um décimo do que Moro registra. E a base do governador é dividida, com Rafael Greca e Alexandre Curi também posicionados para a disputa.

Se a candidatura presidencial de Ratinho Jr. for confirmada, o PL terá um pretexto conveniente para formalizar a filiação de Moro e turbinar sua campanha ao governo paranaense. O resultado pode ser humilhante: Ratinho Jr. parte para a aventura nacional enquanto seu nome ativo político mais importante, o estado que o catapultou, é conquistado por um adversário que ele próprio contribuiu para fortalecer ao recusar a aliança presidencial.

Uma candidatura que nasce como vitrine pode se tornar espelho — e refletir mais fragilidades do que forças.

O preço do lance pelo apoio do PSD sobe

O que o cenário no final da primeira quinzena de março revela não é uma candidatura presidencial estruturada, mas uma manobra sofisticada de valorização de ativo político. O PSD quer ser cortejado — por Lula, por Flávio, para ver quem está disposto a pagar mais em moeda de poder. Ratinho Jr. é o garoto propaganda dessa aposta na valorização do passe do ancoradouro do centrão.

Se o leilão funcionar, o PSD entrará no segundo turno como parceiro indispensável do vencedor, negociando ministérios, liberações orçamentárias e apoio parlamentar. Se não funcionar — se a candidatura for mesmo lançada e não deslanchar nas pesquisas —, o dano à imagem de Ratinho Jr. pode ser considerável, comprometendo exatamente o projeto de 2030 que a candidatura pretendia construir.

Em política, balões de ensaio às vezes afundam. E quando afundam em público, custam mais do que uma eleição perdida.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

Outras publicações