A neuropediatra Irene Abramovich, referência nacional em educação médica, ética e residência, defende que a avaliação de qualidade no ensino médico precisa evoluir para um modelo contínuo, com consequências institucionais claras: quando a nota média de estudantes e indicadores de desempenho apontarem insuficiência, a escola — e não apenas o aluno — deve “entrar em recuperação”, com plano formal de melhoria, metas e acompanhamento externo.
Para a médica, a lógica atual costuma concentrar cobrança no estudante sem exigir, com igual rigor, que cursos com desempenho persistente abaixo do esperado assumam um processo estruturado de correção de rota. “Além de alunos, as escolas com notas médias mais baixas também precisam entrar em recuperação”, sustenta a especialista, que dedicou décadas à formação de profissionais e à governança da residência médica.
Outro ponto central de sua visão é a revalidação periódica dos parâmetros de qualidade — tanto do processo formativo quanto da capacidade institucional de ensinar. Dra. Irene argumenta que a avaliação não pode se limitar a provas objetivas e burocráticas: “Direito é teórico. A medicina não”, diz, defendendo que o ensino médico deve ser validado por critérios que envolvam competência prática, ética, tomada de decisão, comunicação clínica e supervisão qualificada. Na sua leitura, o Brasil precisa de um sistema permanente de aferição, com respaldo técnico e legitimidade: um comitê de notáveis/curadores, capaz de examinar evidências e orientar correções de forma transparente.
A especialista também reforça que revalidação e “recuperação” não devem ser interpretadas como punição, e sim como proteção do paciente, do estudante e do próprio sistema de saúde. Isso inclui mecanismos de avaliação que “vão muito além do fazer cruzinhas”, com uso de instrumentos como observação direta de habilidades, avaliação de desempenho em cenários clínicos, qualidade da preceptoria, indicadores de residência e resultados assistenciais.
Com trajetória marcada por atuação assistencial e educacional — e reconhecida por sua dedicação à humanização do cuidado — Dra. Irene costuma lembrar que a formação médica precisa resgatar fundamentos simples: presença, escuta e responsabilidade. “Todo doente tem nome e os médicos também”, observa, ao defender que a excelência técnica deve caminhar com ética e vínculo humano desde os primeiros anos do curso.





