Por Gaudêncio Penaforte –
A derrota acachapante de Viktor Orbán neste domingo (12/04) na Hungria para o partido de centro-direita Tisza, liderado pelo jovem advogado Péter Magyar, foi festejada com júbilo e regozijo pelos democratas do mundo inteiro, em especial no espaço europeu. Pró-Putin, pró-Trump e anti-europeísta, Orbán estava no poder há mais de dezesseis anos e, à frente do partido de ultradireita Fidesz, capturou as instituições democráticas, encilhou o Judiciário e transformou a Hungria em um país autocrático — o que ele mesmo, sem rubor, chamava de “democracia iliberal”.
A Europa acordou nesta segunda-feira respirando melhor. O paciente ainda inspira cuidados, mas o fim do regime Orbán é a melhor notícia para a União Europeia desde o retorno de Trump à Casa Branca. Afinal, cada dividida não para de pé. E o líder húngaro tinha se convertido em uma espécie de agente russo no seio da União Europeia — o próprio Trump, dias antes das eleições, prometeu pela Truth Social mobilizar “todo o poderio econômico dos Estados Unidos” para fortalecer a Hungria caso Orbán fosse reeleito, e o vice-presidente JD Vance desembarcou em Budapeste para endossar pessoalmente a candidatura. Nem assim mudou o curso da história.
O energético Péter Magyar é egresso da juventude do Fidesz e sua ex-esposa foi ministra da Justiça do governo Orbán. Mas ele soube libertar uma dissidência e construir uma ampla frente para desmantelar o regime.
No Brasil, a derrota de Orbán teve incomparavelmente mais repercussão do que o primeiro turno das eleições presidenciais no vizinho Peru. Curiosamente, porém, a mídia brasileira deu grande destaque às relações de Orbán com Trump e Putin, guardando um estranho silêncio sobre os vínculos que o premier húngaro cultivou com o clã Bolsonaro — laços que foram muito além da mera afinidade ideológica.
Jair Bolsonaro e Orbán encontraram-se pelo menos três vezes. Ainda antes de tomar posse, em 2018, Bolsonaro conversou por telefone com o premier húngaro para discutir o resultado das eleições brasileiras. Orbán foi um dos dez chefes de Estado e de governo presentes na posse de Bolsonaro, em janeiro de 2019. Em fevereiro de 2022, numa das viagens mais controversas de seu governo — em rota que passou por Moscou, onde encontrou Putin às vésperas da invasão da Ucrânia —, Bolsonaro fez uma parada em Budapeste para se reunir com Orbán, sendo a primeira vez que um presidente brasileiro visitava oficialmente a Hungria. Na declaração à imprensa, afirmou acreditar em Orbán “como em um irmão, dadas as afinidades que nós temos na defesa dos nossos povos.” Correspondendo à bajulação, Orbán gravou um vídeo dirigido ao povo brasileiro pedindo a reeleição de Bolsonaro em outubro daquele ano. O terceiro encontro presencial se deu na posse de Javier Milei, em Buenos Aires, em dezembro de 2023.
O capítulo mais constrangedor desta relação, porém, ainda estava por vir. Em fevereiro de 2024, logo após a Polícia Federal apreender seu passaporte no âmbito das investigações sobre a trama golpista, Bolsonaro passou dois dias hospedado na Embaixada da Hungria em Brasília — episódio revelado pelo New York Times a partir de imagens do sistema de segurança da própria embaixada. Seu filho Carlos o visitou lá na noite da terça-feira de Carnaval. O fato de que, dentro da embaixada, Bolsonaro estaria protegido de eventual ordem de prisão não passou despercebido a ninguém. Refúgio diplomático ou não, o episódio selou o nível de intimidade entre o ex-presidente e o regime húngaro.
Eduardo Bolsonaro, o “03”, foi talvez o cheerleader mais entusiasmado da dupla. Na terceira edição brasileira da CPAC, em 2022, dedicou toda a sua palestra a elogiar Orbán, afirmando que “a Hungria é um exemplo de sucesso, de muito sucesso.” Nas redes sociais, chegou a saudá-lo como “o melhor primeiro-ministro do mundo” e “o melhor exemplo de sucesso de um governo de direita.” Em abril de 2024, Eduardo foi pessoalmente a Budapeste para a edição húngara da CPAC — viagem que ocorreu justamente enquanto a Polícia Federal investigava a hospedagem do pai na embaixada húngara. Lá, entregou a Orbán a medalha dos “3 Is” — “imbrochável, imorrível e incomível” —, criação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Levou ainda o filho pequeno, Jair Henrique, para conhecer o premier húngaro. Virou um ritual de família.
Mais recentemente, já em 2025, quando Orbán publicou mensagem de apoio a Bolsonaro nas redes sociais, Eduardo respondeu efusivo: “Ninguém melhor do que você conhece essas pessoas que nos perseguem.”
Pois é. Hoje, com Orbán derrotado nas urnas e sem poder oferecer nem guarida diplomática nem palanque conservador, o silêncio bolsonarista sobre o “irmão húngaro” é eloquente. Perderam juntos. E a imprensa, estranhamente, preferiu não fazer as contas.
Quem ganha é a democracia
O PT de Lula, por sua vez, celebra a derrocada de Orbán com razões adicionais: quando a ultradireita perde, quem ganha é a democracia. Ponto. Nesta semana, Lula vai a Barcelona para um encontro de líderes progressistas, onde se reunirá com Pedro Sánchez, com a presidente do México, Claudia Sheinbaum — que se reconcilia com a Espanha após um interstício de oito anos —, e com Gustavo Petro, presidente da Colômbia, entre outros.
No próximo dia 2 de junho, Sánchez completará oito anos no poder. O que ultrapassar esse marco o tornará o segundo primeiro-ministro espanhol mais longevo desde a redemocratização, atrás apenas de Felipe González, que governou por mais de quatorze anos. As pesquisas indicam que, se houvesse eleições gerais na Espanha agora, a direita liderada por Alberto Núñez Feijóo, do PP, capturaria o governo com seus sócios da ultradireita do Vox — fãs confessados de Orbán.
Mas seria prematuro decretar o fim do ciclo sanchista. Pedro Sánchez é considerado o fênix da política espanhola: já foi dado como acabado diversas vezes e sempre se reergueu da lona e voltou ao combate.
Que lições o PT de Lula pode extrair da derrota humilhante de Orbán e dos problemas de popularidade de Sánchez — que preside uma economia espanhola em período exuberante, com a maior taxa de crescimento da UE e o desemprego na mínima histórica desde a redemocratização?
Lula patina nas pesquisas, como mostrou o último Datafolha (veja mais)
Nenhum democrata que se preze deixará de celebrar a derrota nas urnas de Orbán — que, diferentemente do nosso ex-capitão, reconheceu o resultado, parabenizou o jovem Péter Magyar e se prepara para enfiar a viola no saco e deixar o palco. Aliás, outra diferença básica: não consta que Orbán tenha debochado das vítimas da Covid, nem se desvencilhado de qualquer responsabilidade dizendo à cidadania húngara que não era “coveiro”. Os seus coveiros foram os próprios eleitores, fartos da corrupção e servilismo à Rússia de Putin.
Afinal, ainda faz parte da memória coletiva húngara a sangrenta invasão da União Soviética, em 4 de novembro de 1956, para sufocar a chamada Revolução Húngara, levante popular que exigia reformas democráticas e a saída da Hungria do Pacto de Varsóvia. É preciso lembrar que a Hungria já tinha sido invadida na década anterior pelos nazistas.
A principal lição é que Lula também enfrenta desgaste natural de gestão e o enfado crescente dos eleitores brasileiros, especialmente das faixas mais jovens, como têm demonstrado as pesquisas. É hora de colocar as barbas de molho. E de encontrar a poção mágica de rejuvenescimento da mensagem e do projeto petista. Quiçá volte do encontro com Sánchez com ideias e mensagens novas.
O líder espanhol teve “cojones” para peitar Trump: proibiu o uso de bases aéreas em território espanhol para apoio à guerra insana que o americano conduz a mando de Netanyahu. Ganhou estatura de líder para muito além do raio europeu. Mas enfrenta cenário interno desfavorável, e o calendário eleitoral espanhol lhe garante prazo mais dilatado para se recuperar — as eleições gerais estão previstas para o segundo semestre de 2027.
Lula tem menos de cinco meses para provar mais uma vez sua resiliência de fênix tropical. A ver o que outubro lhe reserva nas urnas.
(*) Gaudêncio Penaforte é analista político e colaborador eventual deste portal.

Viktor Orbán e Péter Magyar.





