Pé diabético: prevenção pode evitar a maioria das amputações relacionadas ao diabetes

Por Bárbara Pupim –

Com o aumento dos casos de diabetes e o envelhecimento da população brasileira, o pé diabético se consolida como um dos principais desafios da saúde pública. Embora seja uma das complicações mais graves da doença, muitos casos ainda poderiam ser evitados com diagnóstico precoce, acompanhamento especializado e cuidados preventivos. No Paraná, a Secretaria de Estado da Saúde tem reforçado ações voltadas à identificação precoce e ao cuidado integral das pessoas com diabetes. Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Regional Paraná (SBOT-PR), alerta para um aspecto ainda pouco conhecido pela população: o papel do ortopedista na prevenção, no tratamento e na preservação da mobilidade dos pacientes.

O pé diabético é resultado das alterações que o diabetes provoca ao longo do tempo na circulação sanguínea, na sensibilidade e na capacidade de cicatrização dos pés. Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), entre 19% e 34% das pessoas com diabetes desenvolverão úlceras nos pés ao longo da vida. Quando essas lesões não são identificadas e tratadas precocemente, podem evoluir para infecções graves e aumentar significativamente o risco de amputações.

Embora a maioria das pessoas associe o diabetes apenas ao controle da glicemia, a doença compromete diversos sistemas do organismo. Com o passar dos anos, a circulação sanguínea diminui, principalmente nas extremidades, os nervos perdem gradualmente a capacidade de transmitir a dor e outras sensações, a pele fica mais ressecada e estruturas responsáveis pela estabilidade e distribuição das cargas nos pés sofrem alterações. O resultado é um conjunto de mudanças conhecido como pé diabético.

É justamente a perda da sensibilidade que torna essa condição tão perigosa. Um calçado inadequado, uma bolha, um pequeno corte ou até mesmo uma pedra dentro do sapato podem provocar lesões que passam despercebidas. Sem o alerta da dor, o paciente continua caminhando normalmente, agravando a ferida. Quando procura atendimento, muitas vezes a infecção já atingiu tecidos profundos, tendões e até os ossos, tornando o tratamento muito mais complexo.

Apesar da gravidade do problema, a maioria das complicações pode ser evitada. Além do controle adequado da glicemia, pessoas com diabetes devem inspecionar os pés diariamente e realizar avaliações periódicas para identificar precocemente alterações na sensibilidade, deformidades, problemas circulatórios e pontos de pressão que favorecem o surgimento de lesões.

O ortopedista atua muito antes que uma amputação seja cogitada. O nosso papel começa na prevenção. Avaliamos a marcha, a distribuição das cargas nos pés, deformidades, alterações biomecânicas e a necessidade de palmilhas, órteses e calçados adequados. Em alguns casos, também indicamos procedimentos capazes de corrigir deformidades que aumentam o risco de lesões. Quanto mais cedo o paciente é acompanhado, maiores são as chances de preservar a mobilidade e evitar complicações.

Nos casos mais complexos, o ortopedista também participa diretamente do tratamento das úlceras, infecções ósseas, deformidades e da reabilitação de pacientes que passaram por amputações. O trabalho inclui procedimentos cirúrgicos, reconstruções, indicação de próteses e dispositivos de apoio, sempre com o objetivo de devolver autonomia e qualidade de vida.

Os avanços da ortopedia também ampliaram as possibilidades de tratamento. Técnicas cirúrgicas menos invasivas, materiais específicos para reconstrução, órteses personalizadas e uma abordagem multidisciplinar permitem preservar os membros em situações que, há alguns anos, frequentemente evoluíam para amputação.

Outro ponto importante é que o paciente participe ativamente do próprio cuidado. Examinar os pés diariamente, manter a pele hidratada, utilizar calçados adequados, nunca andar descalço e procurar assistência ao perceber qualquer ferida, por menor que pareça, são atitudes simples que fazem toda a diferença. O tratamento começa muito antes da cirurgia. Ele começa com informação e prevenção.

Mais do que tratar feridas, prevenir o pé diabético significa preservar a independência, a capacidade de caminhar e a qualidade de vida. Para a SBOT-PR, o diagnóstico precoce, o acompanhamento multiprofissional e a atuação integrada entre endocrinologistas, ortopedistas, cirurgiões vasculares, enfermeiros e fisioterapeutas são fundamentais para reduzir amputações evitáveis e enfrentar uma das complicações mais incapacitantes do diabetes.

(*) Dra. Bárbara Pupim é membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, Regional Paraná (SBOT-PR.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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