O Estadão se Retrata — e Condena
Durante anos, o jornal O Estado de S. Paulo foi um dos mais entusiastas defensores da Operação Lava Jato e do “implacável” juiz federal que a conduzia. Publicou editoriais laudatórios, cobriu a operação com admiração quase devocional e contribuiu, como parte da grande imprensa brasileira, para a construção do mito do paladino anticorrupção. No último sábado (4 de abril), o mesmo Estadão publicou um editorial de título lapidar: “Outro herói sem nenhum caráter”. A referência a Macunaíma — o herói sem nenhum caráter da célebre criação de Mário de Andrade — não é acidental. É um veredicto. O jornalão paulistano concluiu que Moro “foi alçado à condição de símbolo justamente por prometer subverter a lógica do cálculo eleitoral imediato em prol de ambiente político mais racional e republicano.” E acrescentou que, em Brasília, “tornou-se o oposto disso.” São Paulo falou. O Paraná pode ouvir.
O Herói que Não Resistiu ao Teste
O editorial do Estadão identifica com precisão o momento em que a máscara começou a rachar: quando Moro, em vez de manter o distanciamento do bolsonarismo que lhe conferia credibilidade simbólica, aceitou o convívio no Ministério da Justiça — dando, nas palavras do próprio jornal, “ares de verdade à acusação de que sua atuação na Lava Jato teve algum viés político.” O Estadão vai além: “Há uma diferença gritante entre reconhecer a complexidade do jogo democrático e trair os próprios princípios.” O jornal que antes o defendia agora lhe nega qualquer benefício da dúvida. E fecha com uma observação que transcende Moro e atinge o Brasil: “A repetição desse ciclo não é acidental. É decorrência da disposição de parte da sociedade de hostilizar a política e votar em candidatos a messias.” Messias. A palavra escolhida pelo Estadão não é inocente.
“Outra Pergunta” — a Arte de Escapar
Num vídeo veiculado pelo Portal da Foz — veículo de linha editorial declaradamente favorável ao senador — um repórter fez a Moro a pergunta mais óbvia e mais justa que alguém poderia fazer: existe a possibilidade de Flávio Bolsonaro controlar a Polícia Federal, como o próprio Moro acusou Jair Bolsonaro de tentar fazer em 2020? A resposta foi um prodígio de esquiva: o senador despejou uma salada de acusações ao governo Lula, elogiou o ministro André Mendonça — “indicado por Jair Bolsonaro”, fez questão de frisar —, e encerrou com o magistral “Outra pergunta.” Não respondeu. Não podia responder. Porque qualquer resposta honesta o obrigaria a escolher entre duas hipóteses igualmente devastadoras: ou mentiu em 2020 quando acusou Bolsonaro de interferência na PF para proteger os filhos — entre eles Flávio, acuado pelo escândalo das rachadinhas na Assembleia do Rio —, ou está mentindo agora, ao abraçar quem ele próprio denunciou. Na política, “outra pergunta” é a confissão de que não existe resposta.
O Teto de Vidro de Flávio
Moro usou o INSS como bordão de campanha, apontando o filho do presidente Lula como suspeito de envolvimento no esquema. Fez isso com a desenvoltura de quem não leu — ou fingia não ter lido — o relatório da bancada majoritária da CPMI, apresentado em separado e sistematicamente bloqueado pelo presidente da comissão, senador Carlos Viana, de levar a votos. Esse relatório documenta algo que Moro, como senador que participou dos trabalhos da CPMI, conhece bem: Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro — escritório esse registrado na mansão do senador em Brasília — é irmã de Alessandro Caetano dos Reis, apontado pela Polícia Federal como sócio do Careca do INSS em offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. As fraudes escalaram de forma exponencial entre 2019 e 2022, sob a gestão de Jair Bolsonaro, com um “Apagão de fiscalização” que permitiu que associações suspeitas drenassem o dinheiro dos idosos sem resistência estatal. Moro sabe que Flávio tem teto de vidro. Por isso desvia o olhar. E manda outra pergunta.
O Ministro que Endossou Ramagem
Para entender a desfaçatez de Moro ao elogiar a independência da Polícia Federal sob Bolsonaro, convém lembrar um detalhe que o senador prefere omitir: em março de 2020, quando Bolsonaro tentou nomear Alexandre Ramagem — apaniguado do clã, depois condenado pela trama do 8 de Janeiro e hoje foragido da Justiça brasileira, na lista da Interpol — para a direção-geral da PF, Moro endossou a indicação. Foi o ministro Gilmar Mendes, do STF, quem suspendeu a nomeação. Moro só pediu demissão do Ministério da Justiça em 24 de abril de 2020 — mais de um mês depois da derrota judicial de Bolsonaro no episódio Ramagem. Ou seja: o ministro que hoje se apresenta como defensor da independência da PF tentou entregar a corporação a um homem que depois fugiu do país e está na lista da Interpol. Na CPAC, semanas atrás, Flávio Bolsonaro se confraternizou com o foragido. Moro não comentou. Outra pergunta.
A Máscara já tinha Caído em 2022
Há quem finja surpresa com a reconversão de Moro ao bolsonarismo. A surpresa é falsa. A máscara tinha caído antes, nos estúdios da TV Globo, na noite de 28 de outubro de 2022 — dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais. Ali estava o ex-juiz que acusara Bolsonaro de interferência na PF, o ex-candidato à Presidência que dissera que “quem manda no Bolsonaro é Valdemar Costa Neto”, o senador recém-eleito que prometera independência — sentado entre os assessores de campanha do presidente, treinando-o para o debate e despachando orientações durante o confronto com Lula. Publicou vídeo nas redes: “Dia 30, vote 22.” O comentarista Merval Pereira, da GloboNews, traduziu o episódio com a sobriedade de quem se decepciona sem estarrecer: a presença de Moro ali “só prova que o alvo dele sempre foi o Lula.” Não foi convergência de ideias. Foi a confissão, ao vivo e em rede nacional, de que a cruzada moral sempre teve alvo específico — e esse alvo nunca foi a corrupção.
O Macunaíma das Araucárias e o Veredito Final
O Estadão escreveu sobre Moro que “o que mudou não foram os fatos, mas a conveniência política de todos os envolvidos nessa articulação.” A frase é precisa. Os fatos são os mesmos: Valdemar Costa Neto foi condenado pelo Mensalão; Flávio Bolsonaro é investigado pelas rachadinhas e tem como sócia de escritório a irmã do contador do Careca do INSS; Jair Bolsonaro está preso em regime domiciliar, condenado por tentativa de golpe de Estado. Nada disso mudou. O que mudou foi que Moro precisa de legenda para ser candidato ao governo do Paraná. O jornalão paulistano fecha seu editorial com uma lição que cabe ao eleitor paranaense: “Caberá aos eleitores do Paraná decidir se isso é tolerável.” O Macunaíma das Araucárias não tem caráter. O eleitor, sim.
Por David Lopes





