Governança clínica oferece mais segurança ao paciente e reduz erros médicos

Tema foi discutido em congresso nacional de Direito Médico, realizado em Curitiba elo Instituto Miguel Kfouri Neto.

Você confiaria em um hospital que nunca passou por uma inspeção de qualidade? A pergunta pode parecer dura, mas foi feita com toda seriedade pelo médico, professor e gestor Juliano Gasparetto durante o II Congresso Nacional de Direito Médico e da Saúde, realizado em Curitiba pelo Instituto Miguel Kfouri Neto (IMKN). Segundo ele, menos de 10% dos hospitais no Brasil têm algum tipo de acreditação — uma espécie de “selo de qualidade” que reconhece instituições que seguem padrões rigorosos de qualidade e segurança no atendimento à saúde

Gasparetto dirige dois hospitais com perfis bem diferentes: o Universitário Cajuru, que atende só pelo SUS, e o São Marcelino Champagnat, referência no atendimento privado e suplementar. Os dois têm acreditações máximas, o que, segundo o médico, não é um luxo — é uma necessidade.

“Você não compraria um carro sem saber se o freio funciona. Por que aceitamos ser operados em hospitais que não passam por nenhuma checagem?”, questiona.

Hospital seguro não é obra do acaso

Para Gasparetto, a segurança do paciente e a qualidade do atendimento não dependem apenas de bons médicos ou equipamentos modernos. “É preciso ter regras claras, processos padronizados, trabalho em equipe e transparência nos resultados”, explica.

Esse conjunto de boas práticas tem nome: governança clínica. Na prática, significa que médicos, enfermeiros, gestores e até o setor jurídico do hospital trabalham juntos para garantir o melhor cuidado possível, com o menor risco. “Quando tudo é feito de forma organizada, os erros diminuem, os tratamentos são mais eficientes e a confiança aumenta. Isso faz bem para o paciente e também para o hospital”, resume.

Dentro desse contexto, o jurídico deixa de ser apenas um “bombeiro de crise” e passa a atuar como parte estratégica da governança corporativa. Foi o que destacou o advogado Tertius Rebelo: “Governança e propósito são pilares da eficiência. As empresas de saúde são organismos complexos que operam na interseção entre ciência, ética e negócios. Por isso, devem atuar com jurídico preventivo, gestão estratégica e crescimento sólido”, aponta.

O que é acreditação hospitalar?

A acreditação é uma avaliação feita por instituições independentes que analisam o funcionamento dos hospitais. No Brasil, a principal delas é a Organização Nacional de Acreditação (ONA), mas existem entidades internacionais como a Joint Commission International (JCI). Elas verificam desde a limpeza dos ambientes até o preparo das equipes, o uso correto de medicamentos e o acompanhamento dos pacientes.

O Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba, é o único do Paraná com atendimento 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a obter a acreditação máxima da ONA. “Isso mostra que qualidade não é só uma questão de dinheiro, mas de compromisso”, diz Gasparetto. Já o Hospital São Marcelino Champagnat foi planejado desde o início para seguir os padrões internacionais, e soma três certificações consecutivas da Joint Commission International (JCI), maior referência internacional em acreditação hospitalar. Os hospitais fazem parte do Complexo de Saúde do Grupo Marista.

Saúde com mais valor

O médico também defende uma mudança na forma como os hospitais são pagos. Hoje, a maior parte ainda funciona no sistema chamado fee-for-service, em que o hospital recebe por todo exame ou procedimento feito. Gasparetto propõe o modelo da “saúde baseada em valor”, no qual o pagamento é feito de acordo com os resultados para o paciente. “O que importa não é só quantos exames você fez, mas se a sua dor melhorou, se você conseguiu voltar a trabalhar, se recuperou bem. Isso é saúde com valor de verdade”, reforça.

O que é governança clínica?

É o conjunto de regras, processos e equipes que garante que tudo no hospital funcione de forma segura, organizada e com foco no bem-estar do paciente. Ela envolve médicos, enfermeiros, gestores, juristas e auditores trabalhando juntos por um mesmo objetivo: cuidar melhor das pessoas.

O papel do paciente

Embora muitas decisões sejam técnicas e institucionais, o paciente também exerge um papel essencial nesse processo:

  1. Pergunte se o hospital tem acreditação. É um direito saber quais padrões de qualidade a instituição segue.
  2. Leia e compreenda os termos de consentimento. Eles explicam os riscos e etapas dos procedimentos.
  3. Participe da sua jornada de cuidado. Tire dúvidas, peça informações claras e acompanhe seu tratamento.

Juliano Gasparetto resume o que considera o hospital ideal: “Aquele em que a decisão médica é técnica e ética, a gestão é transparente e o paciente está no centro — mas o profissional também é protegido.”

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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