Respeitável público! Antes do teatro, Curitiba aplaudia touradas

Do rural ao urbano: Emancipação da Província do Paraná impulsionou a modernização de Curitiba e marcou a história do entretenimento.

“O teatro é um dos mais nobres e elevados passatempos a que se pode dar o homem culto; sua influência não se faz sensível como recreio meramente, é também um elemento de civilização e progresso”, cobrou o jornal “Dezenove de Dezembro”, na edição do dia 26 de dezembro de 1855. O apelo da imprensa, entretanto, demorou quase 30 anos para sair do papel. Primeiro teatro oficial de Curitiba, o São Theodoro – hoje o Centro Cultural Guaíra – só foi inaugurado no dia 28 de setembro de 1884.

Com média anual de 200 mil espectadores, as atrações do Festival Internacional de Teatro de Curitiba, maior evento de artes cênicas da América Latina, lotam não só as casas de espetáculos, mas também ocupam as praças e outros espaços não convencionais. Mas, antes do nosso primeiro teatro oficial, o que movimentava a vida social por aqui? A história do entretenimento da capital paranaense é tema da nova reportagem especial do Nossa Memória, desdobrada em podcast da Câmara Municipal de Curitiba (CMC). Confira AQUI.

À época da reportagem do “Dezenove de Dezembro”, primeiro jornal da recém-emancipada Província do Paraná, a população total era de 20.629 habitantes, sendo 18.861 pessoas livres, número que corresponde a 10% da média de público das últimas edições do Festival de Teatro. O levantamento histórico data de 1854 e tem como referência as Listas Nominativas de Habitantes, espécie de pré-Censos da população. Além disso, referia-se ao distrito da vila de Curitiba, ou seja, também compreendia as freguesias de São José Palmeira, Campo Largo, Iguaçu (Tindiquera) e Votuverava.

A Curitiba de 1853, conforme definiu o jornalista, historiador e político Rocha Pombo (1857-1933), era “acanhada e sonolenta”. O teatro era visto como “um elemento de civilização e progresso”, mas sua consolidação foi um processo gradual, iniciado há 165 anos, dentro do processo de transição do rural para o urbano, fruto, justamente, das transformações políticas, econômicas e sociais trazidas pela Emancipação da Província do Paraná. 

Buscava-se a modernização e o progresso em diferentes aspectos. Nas palavras do jornal “Dezenove de Dezembro”, a estrada da Graciosa, por exemplo, que seria concluída apenas em 1873, era vista como a forma de puxar o “triunfo da civilização” para o comércio, a agricultura e a indústria da nova Província, encerrando o ciclo do caminho definido como uma “vala” que, em “ruínas perigosas”, colocava em risco aqueles que faziam a travessia entre a capital e o litoral do Paraná.

Os vereadores, a quem cabia determinar as posturas do período imperial, com vistas à “civilização moderna”, também eram demandados. “A nossa Câmara Municipal, que tão solícita se mostra no desempenho de suas importantes funções, permitirá que de passagem lhe lembremos que, logo que o governo [provincial] ponha à sua disposição algum engenheiro, é preciso tratar de dar a esta nossa capital um plano a que se sujeitem às novas construções, que nela estão se levantando quase todos os dias. As nossas grandes capitais, inclusive a Corte do Rio de Janeiro, são cidades muito defeituosas por haverem se levantado sem plano, a gosto e capricho dos primeiros proprietários”, alertou o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 29 de abril de 1854.

A reportagem chamava a atenção para a necessidade de se padronizar a largura das ruas e a extensão dos quarteirões e de implantar um sistema de esgoto, para “evitar-se a monstruosa quantidade de lama que entulha as ruas depois de qualquer chuva”, bem como de evitar “certas questões da arquitetura das casas”, colocando fim às “construções aleijadas”. “Tudo isso merece séria atenção da nossa Municipalidade. Não temos ainda iluminação, as calçadas são horríveis. Ninguém se atreve sair à noite a passeio porque tem medo de cair em algum barranco ou ir abraçar-se aos chavelhos [chifres] de algum boi”, acrescentou o jornal.

Curitiba adota touradas como símbolo de progresso 

No entanto, além da preocupação com a construção de estradas, a infraestrutura urbana, a saúde pública, o abastecimento de água, o saneamento básico e a iluminação pública, entre outras questões da dinâmica urbana, a transição do rural para a cidade vista como moderna, no século 19, também foi marcada por transformações sociais e culturais. 

A elite curitibana passou a defender, mais intensamente, modelos de progresso e de comportamento vistos como mais civilizados e refinados, a partir de dinâmicas sociais adotadas por metrópoles europeias, como Paris e Londres, e pela capital do Império, o Rio de Janeiro. Uma das práticas que chegaram à capital da Província do Paraná, sob discursos de serem bem aceitas na Corte, foram as touradas.

“Há que se ter em conta que, no século 19, as touradas bem se ajustaram à dinâmica das localidades que transitavam do rural para o urbano. Já adotaram um modelo empresarial – o sucesso do empreendimento dependia da venda de ingressos, mas ainda mobilizavam muitos elementos do campo, não só pela presença explícita do gado, como também por uma certa rudeza menos identificada simbolicamente com a cidade que passava por um processo de ‘refinamento dos gestos'”, cita o estudo “Aos touros: a tauromaquia, o processo de modernização e o trânsito do rural ao urbano em Curitiba (1856-1916)”, de Victor Andrade de Melo e Leonardo do Couto Gomes. A pesquisa foi publicada na revista “Diálogos”, em 2020.

As touradas também eram chamadas de corridas de touros, praça de touros, circo de touros e de tauromaquia. Conforme registros da imprensa local, Curitiba recebeu os espetáculos entre 1856 e 1916. As companhias itinerantes se instalavam em praças públicas da cidade, à época ainda chamadas de largos. A exemplo de outros divertimentos, como bailes públicos e rinhas de galo, era necessário o pagamento de impostos à Municipalidade – neste caso, da “licença tauromáquica”.

O primeiro registro da imprensa local em relação às touradas é de 13 de fevereiro de 1856, quando o diretor da companhia comunicou ao “respeitável público” o novo divertimento da cidade, que desde 1837 já teria passado “por todas as Províncias deste Império”. A estreia do espetáculo ocorreria no dia 21 de fevereiro, mas, em função do período de quaresma, foi transferida para o domingo de Páscoa. 

“Domingo 23 do corrente, se o tempo permitir, terá lugar o primeiro divertimento de corridas de touros”, registrou o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 19 de março de 1856, sobre o circo montado em frente ao Palácio do Governo, que ficava entre as ruas das Flores e da Carioca, a atual rua Riachuelo. “O diretor não se tem poupado a despesas e trabalhos a fim de apresentar um espetáculo digno ao respeitável público, de quem se espera o mesmo acolhimento que se tem obtido nas outras Províncias do Império.”

Ao longo do século 19 e no começo do século 20, temporadas de outras companhias ocuparam os largos curitibanos. No dia 31 de maio de 1882, a recém-criada “Gazeta Paranaense” anunciou a chegada da Companhia Tauromáquica Lusitana, após passagem pelas “principais cidades da Europa, nas repúblicas do Prata [Argentina, Paraguai e Uruguai] e, ultimamente, nas Províncias deste Império”. Dirigida pelo “intrépido cavaleiro” Joaquim José Leite Vasconcellos, natural de Coimbra, Portugal, o elenco reunia, inclusive, a cavaleira Idalina Villaça, definida como a “heroína porto-alegrense”. 

No dia 15 de julho de 1882, a Companhia Tauromáquica Lusitana reforçou o convite para o debut em Curitiba: “Da tourada na praça, já se ouve soar. Corneta festiva, tocando a chamada! Já grande alvoroço, em todos se expande. Sinal evidente de que temos tourada”. 

Ao longo dos próximos meses, a companhia deu sequência às funções (apresentações) na cidade de Curitiba. Entre os anúncios publicados pelo jornal “Gazeta Paranaense”, foi divulgado o segundo espetáculo, a “grande e esplêndida corrida de quatro bravos, valentes e puros touros ou novilhos”, a ser realizado em um domingo, dia 23 de julho de 1882, no largo Lobo de Moura, que depois recebeu o nome de largo Thereza Christina e, desde 1901, é a praça Santos Andrade, no Centro da capital do Paraná.

Conforme a propaganda, o espetáculo começaria com a apresentação do Hino Nacional, executado pela “banda de música do Corpo Policial”.  Encerrado o momento cívico, os toureiros, a pé e a cavalo, dariam início ao martírio dos animais com o uso de farpas e bandarilhas, instrumentos pontiagudos, além de “saltos por cima das feras, com ou sem vara”.

Entre as atrações inéditas, uma estratégia adotada na divulgação de cada nova função, como forma de atrair o público, prometeu-se a execução das “dificílimas” “Salto de la garrocha [vara com ferrão]” e de “Passes de muleta [pano vermelho usado no terço final da lide, como instrumento para enganar o touro]”. “Advertência. Estes touros serão toureados de capa pelos artistas que o diretor determinar”, mencionou o anúncio. Apesar disso, não fica claro se os animais seriam mortos, ou não, ao final da tourada.

Já para a terceira apresentação da Companhia Tauromáquica Lusitana, a “Gazeta Paranaense” disse ter informações de que “bons touros” haviam sido apanhados “nas matas do Uberaba”. Na edição de 19 de agosto de 1882, o jornal publicou a primeira crítica ao espetáculo, lamentando que o público da capital não estaria “apreciando devidamente os importantes e arriscados trabalhos que têm sido executados”.

“Pela primeira vez aqui têm vindo verdadeiros artistas tauromachinos”, elogiou. “Este gênero de diversão que tantos aplausos tem recebido na Europa, e que na América começa a aparecer, é digno da concorrência pública”, defendeu o jornal. “Não podemos, porém, furtar-nos a lamentar que os touros e as vacas fornecidos, na maior parte, não tenham ajudado os artistas”, continuou. Segundo a “Gazeta Paranaense”, uma das funções que mais arrancou aplausos do público foi quando um dos cavaleiros “fez, pespegando [assentando] na testa do bicho, já furioso, uma estrela”.

No noticiário do mesmo jornal, divulgou-se, uma semana depois, que ao pescoço de um dos touros seria “colocado preço, […] que pertencerá a quem os for tirar”. Mantendo os elogios à Companhia Lusitana e à braveza dos animais fornecidos pelo coronel Manoel Ignacio, a “Gazeta Paranaense” relatou que o touro da segunda função “era tão bravo que, não conseguindo espetar os artistas, enraiveceu-se que começou tremendo, caiu e morreu instantaneamente no centro da praça”. Ao boi cujo pescoço havia sido colocado preço, informou-se que “ninguém o tirou”.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

Outras publicações