O megafone como correligionário no Vale do Ribeira

A ausência de público no evento de Moro diz algo sobre a presença de quem já está lá.

O anúncio previa um grande encontro regional. Uma demonstração de força do PL no Vale do Ribeira. Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros e o pré-candidato Neto Santos reunidos para mostrar ao Paraná que a máquina eleitoral do campo bolsonarista estava pronta e funcionando.

O resultado foi um megafone.

Não metaforicamente. Literalmente. Sergio Moro, senador da República e principal nome do PL na disputa pelo governo do Paraná, precisou pegar um megafone para se dirigir ao público presente no evento de Rio Branco do Sul. A imagem circulou pelas redes sociais e dispensou qualquer legenda.

O que aconteceu do inicio ao fim

O evento foi inicialmente divulgado para a Avenida Nossa Senhora do Amparo, nº 491, em Rio Branco do Sul. Dias antes da data, a organização anunciou transferência para a Chácara Tucumantel, em Itaperuçu — justificando, com otimismo, que a mudança se devia à “grande procura” e à necessidade de um espaço maior.

A “grande procura” que justificou um espaço maior resultou em aproximadamente 100 pessoas.

Entre apoiadores, assessores e integrantes da própria organização.

Mas a novela de locais não parou por aí. Nos dias seguintes, novas orientações circularam entre apoiadores, gerando dúvidas sobre a confirmação definitiva do endereço. Integrantes do grupo atribuíram as dificuldades à administração municipal de Rio Branco do Sul, levantando a tese de perseguição política — alegação que, até o momento, não foi sustentada por nenhum documento ou decisão oficial.

No final, o evento aconteceu na propriedade da família do próprio Neto Santos, o pré-candidato que articulou a agenda. O anfitrião virou o local. A organização virou improvisação.

Em campanha, a imagem vale mais que o discurso. E a imagem que ficou do encontro de Rio Branco do Sul é a de Sergio Moro com um megafone na mão.

Um candidato que lidera pesquisas com folga, que tem o apoio estrutural do PL nacional, que conta com nomes como Deltan Dallagnol e Filipe Barros ao seu lado — usando um megafone numa propriedade particular porque o evento não cabia, literalmente, nem no espaço planejado nem no improviso que o substituiu.

Não há perseguição política que explique um megafone. Há organização. Ou a falta dela.

O que o episódio revela

O campo do PL no Paraná enfrenta um problema que as pesquisas ainda não capturam completamente: a distância entre a liderança nas intenções de voto e a capacidade de mobilização territorial real.

Moro lidera nas pesquisas. Mas pesquisa não faz campanha. Não organiza evento. Não mobiliza prefeito. Não enche ginásio. E num estado como o Paraná, onde a política municipal tem peso decisivo na formação do voto, a capacidade de mobilizar presença física é um termômetro importante de como a candidatura está se construindo no território.

Cento e cinquenta pessoas num evento anunciado como grande encontro regional, com três mudanças de endereço e um megafone como solução de sonorização, é um termômetro.

Vale do Ribeira tem dono

O Vale do Ribeira não é território neutro. É uma das regiões onde Karime Fayad, pré-candidata a deputada federal pelo MDB, tem construído ao longo dos últimos anos uma relação sólida com lideranças locais, prefeituras e comunidades. Uma presença que não se constrói com evento. Constrói-se com trabalho contínuo, visitas, escuta e compromisso com as demandas da região.

Quando o PL chega ao Vale do Ribeira para montar uma agenda de impacto e o resultado é 150 pessoas numa propriedade improvisada, há uma explicação territorial para isso. O campo já está ocupado. Não por decreto, não por decreto nem por megafone. Por construção política real.

A ausência de público no evento de Moro diz algo sobre a presença de quem já está lá.

No Paraná, quem organiza bem os municípios costuma ter uma boa surpresa no segundo turno.

E quem depende de megafone para ser ouvido no Vale do Ribeira tem um longo caminho pela frente.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

Outras publicações